Sob o caminho uma rajada de ventos (trecho)

Karine Bassi

"(...) No meio do caminho o telefone tocou. 'Oi mãe. Bença!,' disse. 'Deus abençoe, filha. Como vão as coisas por aí?' Era ela, sempre tão preocupada me dizendo que ainda estava ali. 'Tudo bem, mãe. Estou dando conta.' Eu não faço ideia porque diacho sempre quis parecer tão dura, sempre tão certa de mim. Talvez fosse por medo de como os outros estariam me vendo em casa. A escolha de ficar foi minha e eu deveria pagar por ela. 'Seu pai disse que vai comprar a passagem pra você vir visitar a gente.'' A sua voz era macia e eu me sentia como se deitasse em uma nuvem de algodão. Como se eu pudesse ver todo o mundo lá de cima. Como se eu pudesse voar por aldeias e quilombos. Como quando eu me deitava na rede e ela me balançava e contava histórias de mulheres lá da roça, mulheres guerreiras que acordavam sempre cedinho pra ajeitar as coisas em casa e deixar a marmita pronta pra levar pros homens que estavam na enxada. E eu, sempre que imaginava essas mulheres, via o rosto da minha mãe. Não consegui emitir a resposta de imediato, mas ao final concordei com a ideia. 'Eu só preciso terminar esse semestre, mãe. Semana de provas e apresentações de trabalho. Depois de tudo estarei livre para passar a virada do ano com todos vocês.' Ela não escondeu o alívio quando suspirou fundo.

Ficamos ainda um tempo em chamada, ela me falou sobre a avó e como a roça estava dando frutos devido ao período de chuva. Ela estava contente e isso me deixava aliviada. Descobri porquê toda mãe tem um "trem" com esse negócio de casacos. É que no coração das mães, sempre que os filhos saem, faz frio. O sol até pode estar rachando na rua, mas é que o peito que é tão quentinho dá lugar à ausência e aí faz frio, venta e em alguns até chove."


Capítulo 5 do livro "Sob o caminho uma rajada de ventos" - (venas abiertas, 2020)


Karine Bassi é o pseudônimo de Karine Silva Oliveira, jovem periférica da extrema Zona Oeste de Belo Horizonte. Filha de José negro e Maria indigena, é escritora contemporânea marginal, feminista e artivista pelas causas sociais. Formada em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), foi a primeira da família a ingressar numa universidade pública, contrariando as estatísticas e o excludente sistema de seleção. Bassi é articuladora e produtora cultural no ColetiVoz - coletivo responsável por desenvolver atividades sociais, culturais e de emancipação de territórios no Barreiro e regionais adjacentes-; é idealizadora e coordenadora da editora popular Venas Abiertas - editora construída no formato cooperativo e popular que prevê a produção e disseminação da literatura produzida por pessoas à margem do mercado editoral-; também produz e é atriz na companhia de teatro marginal periférico, Cia 5SÓ.

Suas últimas publicações são o romance Sob o Caminho uma Rajada de Ventos (venas abiertas 2020), e o livro de contos Reboco - vol 8. na coleção II, Mulherio das Letras (venas abiertas, 2020).

Bassi atua como educadora social, desenvolvendo diversos projetos na área de arte-educação e cultura de rua, tendo como projeto principal o De quebrada pra Quebrada, que objetiva e contribui para periferias saudáveis a partir de ações socioculturais, ambientais, de formação pessoal/profissional e de economia solidária.