Sozinha não resiste memória

Andrezza Postay

Eu acho muito esquisito que ninguém tenha reparado nisso antes. Eu lavei essa parede quando a gente se mudou, Lúcio. Acho que eu teria notado se isso já estivesse ali. Eu sou minuciosa, você sabe. Essas coisas me incomodam. E eu sei que tinha muita aranha e eu tava focada em acabar com elas, mas é muito esquisito não lembrar ou não ter visto. Fica logo atrás do abajur, Lúcio, na cabeceira, eu olho para essa parede todo dia. Múltiplas vezes!

Sabe que eu tô olhando pra ela de novo e só me parece mais esquisito que esse sinal ou número tenha aparecido do nada. Eu lembraria se já estivesse ali. Meu irmão disse que eu devo ter deixado passar, mas eu presto atenção nessas coisas, você sabe, né, Lúcio? Ele disse que deve ser uma indicação do marceneiro que montou o armário, mas meu armário tem quatro portas e nem fica pro lado que aponta a seta. Pra que escrever um número aleatório na parede? Tu não foi com a cara do homem, eu lembro que até saiu da poltrona quando ele entrou com as portas e prateleiras. Olha como eu lembro das coisas!

Os lápis dessa casa estão todos no escritório, não tem nenhum no quarto.

Mas tem um lápis no meu estojo, às vezes eu o trago para ler na cama. Fiquei pensando no banho hoje de manhã, Lucas. Será que fui eu que escrevi esse número na parede? Mas por que eu faria isso? Chego a me arrepiar com a ideia do grafite raspando a parede branquinha, olha como a linha fica tremida, essa parede devia ser mais lisa, não gosto desses relevinhos. Será que isso é do concreto, ou da tinta? Essa parede é de concreto?

E se for a indicação de alguma coisa, Lucas? Tipo uma caça ao tesouro. Eu e meu irmão escondíamos coisas pela casa e fazíamos mapas um para o outro quando éramos crianças. Já te contei essas histórias? Segui a direção aqui, três cômodos para a esquerda a gente passa pelo banheiro, pela sala e vai parar na área de serviço. Eu até me prestei a inspecionar, mas não tem nada lá.

Meio que parece a minha letra. Estou olhando mais de perto, Lúcio, olha, não parece a minha letra, um pouco mais tremida? Será que fui eu quem escreveu isso? Teve aquele dia, o do porre de vinho, fiquei tão bêbada que tropecei em você umas quantas vezes. Até caí no banheiro, me enrolei no tapetinho, aquele verde trançado com fios marrons. Horroroso aquele tapete e ainda por cima escorrega.

Não dormi direito essa noite, Lucas, esse apartamento é tão grande, e eu juro que ouvi uns sons estranhos vindos da parede. Aquela pra onde aponta a seta, era como uma batida, bem de leve, como se alguém estivesse jogando uma meia enrolada na parede. Fiquei com a sensação que ia acontecer alguma coisa, que alguém ia entrar pela janela.

O três pode ser terceiro andar, né, Lúcio?

Fui eu que escrevi isso. Se não fui eu, significa que alguém entrou aqui enquanto eu dormia e rabiscou minha parede. Não dormi de novo, Lúcio.

Alguém entrou aqui, só pode. Eu não riscaria uma parede, nem bêbada. Estou com dor de cabeça. Já passei dos quarenta, não tenho mais idade pra ter insônia.

Eu achei um lápis embaixo da estante, Lucas, aquela branca que fica escorada na parede, bem do lado da mesa de cabeceira. É um lápis daqueles de ponta macia difícil de quebrar. Não sei se ele é meu. Meu irmão gostava muito deles quando a gente estudava, mas eu sempre preferi escrever a caneta. Meu irmão é artista. Sinto saudades, mas não posso sair.

Agora olho para esse número da parede e me pergunto se estava contando os dias. Acho que não, mas sinto que deveria, Lúcio.

Já não sei mais.

Quanto tempo faz que levaram você? 

ANDREZZA POSTAY é escritora e psicóloga; mestre e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS. Ministra oficinas de escrita, faz traduções e leituras críticas. Trabalha com pesquisas relacionadas à tecnologia, ficção e criatividade. É editora da Revista Travessa em Três Tempos, e tem contos publicados em antologias como Tudo soma zero e Caleidoscópio, além de ensaios teóricos, como no livro Sobre a Escrita II.