Três ou quatro quaisquer coisas

Marcela Dantés

Ameaçou três vezes antes de efetivamente se levantar. Tinha a vontade, tinha o impulso inicial, mas faltava a coragem. O movimento interrompido antes de acontecer e ela dois ou três centímetros mais perto da borda do assento - ninguém saberia. Até que foi. Deixou pra trás a cadeira amarela de metal, o logotipo vermelho de uma bebida famosa e toda a ironia daquele objeto supostamente inofensivo. Caminhou olhando o chão e os bicos gastos do seu sapato favorito, camurça em dia de chuva. Subiu o degrau. Pequenas batidas com as pontas dos dedos no microfone, gesto automático de quase todo mundo, olhou pra alguém buscando a confirmação tá funcionando, estamos te ouvindo.

- Meu nome é Isabel e eu não bebo. E nem moro aqui perto, na verdade.

E explicou que era de longe, do lado de fora da avenida redonda, bairro com nome de mulher, rua com nome de sentimento. E disse que na impossibilidade de encontrar um grupo de pessoas como ela, o AA era o que mais se parecia. As reuniões, os passos, os depoimentos. A gente aqui na frente exibindo nossas feridas, na esperança de se sentir menos podre.

- Não sou acumuladora, não. O que eu tenho são coleções, é diferente porque um tem valor e o outro não.

E discursou brevemente sobre o valor das coisas bonitas, o valor das coisas raras, o valor das coisas singelas, um leve desdém que aparecia no fundo da garganta, quando a voz desafinava num quase riso ao explicar que acumulador era quem pegava qualquer coisa em qualquer lugar e ela não. Ela fazia uma curadoria do que havia de bonito no mundo. Horas antes, tava lá, sentada no fundo do ônibus, lendo e relendo a palavra curadoria na tela do celular. Até anotou na palma da mão, era importante demais dizer a coisa certa, mostrar que sabia o que estava dizendo. Não precisou da cola porque não se esqueceu, a palavra difícil veio na ponta da língua, era fácil falar daquela vida.

Cu-ra-do-ri-a.

Meu nome é Isabel e estou há três dias sem recolher objetos. Essa é outra reunião porque lá, perto de casa, começou a ficar estranho, as pessoas falando, falando, apontando o dedo pra mim assim que eu virava as costas. Às vezes nem esperavam, me olhando esquisito. Me esquisitando. Beber, beber, beber era normal. Escolher as coisas boas, passar um paninho e guardar, guardar, guardar, isso não. Ela gostava das reuniões porque era mais fácil organizar os pensamentos assim, em voz alta. Gostava de ver as pessoas pela primeira vez, os olhos de espanto, a interrogação tatuada na testa.

- Mas eu não tô tentando parar, não. Meu nome é Isabel e eu guardo. Tem que ser bom. E vai dar tudo certo, gente. Vai dar tudo certo pra vocês. Chá é ótimo. Obrigada.

O microfone ficou ali, no assento meio curvo da cadeira de madeira que servia de apoio pro grupo. O microfone rolou até o chão, aterrissou fazendo barulho, doeu no fundo dos ouvidos de todo mundo que tava ali, alcoólico, anônimo, em recuperação. O microfone era bonito, e ela quis o microfone. E esperou, ouviu o Dimas, que já estava há três anos sem beber, ouviu a Lourdes e seus olhos de ressaca do dia anterior. Ouviu um outro cara muito alto e muito magro que não falou nada sobre nada, só do fim do mês que já chegava e do barulho da chuva no telhado, que era mesmo um barulho bom. E quando todo mundo aplaudiu foi fácil se levantar e quando todo mundo caminhava em direção a porta foi fácil escorregar pro outro lado, ela queria aquele microfone bonito, e ele cabia na sua bolsa.

Ela usava bolsas grandes.

E quando tava saindo, só duas ou três pessoas na sala porque sempre tem quem fique pra trás, aquele chiado esquisito. Microfonia. E o microfone na bolsa. Apertou o passo e o elevador.

- Eu gostei de te ouvir falar.

E quem falava era um sorriso, um homem bonito e os dentes alinhados como a camisa e os dedos que apertaram o S de Saída eram os dedos mais bonitos que ela já tinha visto na vida inteira e como seria bom se ela pudesse guardar aquele metro e oitenta na sua coleção. E você toma café? Cachaça não. Riram os dois, você me passa o açúcar? E ela explicou a complexidade das coisas, uma planta nunca é só uma planta, até as ervas daninhas tem qualquer coisa de bonito, a gente se afeiçoa, sabe? Uma correspondência não aberta, o envelope branco endereçado também é bonito. Um quarto cheio de coisas. Uma casa cheia de coisas.

A gente se vê na semana que vem, eu gostei de falar, eu vou trazer umas coisas pra você ver, talvez uma plantinha. Eu trago o que der, pra te mostrar. Ou você pode ir comigo.

Você pode ir comigo?

O coração acelerado, batendo alto, pulsando forte, era bom falar. O microfone que já não tinha mais microfonia. Uma revista largada no assento do ônibus, bonita, bonita, também vai. A chave de casa que quase não cabia na bolsa, ela que quase não cabia em casa. A jabuticabeira no quintal e três ou quatro árvores de Natal. Um coelho de pelúcia. E dezoito relógios. Todos funcionando e os ponteiros rodando, rodando e rodando. E ele que nunca chegou - parece que também não bebia, colecionava vazios. 


Marcela Dantés nasceu em Belo Horizonte, em 1986.

Seu livro de estreia, a coletânea de contos Sobre pessoas normais (Ed. Patuá), foi semifinalista do Prêmio Oceanos. Em 2016, foi a autora residente do FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, a convite do escritor José Eduardo Agualusa.

Em 2020 lançou seu primeiro romance, Nem sinal de asas (Ed. Patuá). 



Foto: Rafael Motta