#TristesTopics

Nathalie Lourenço

Se era possível tomar coca cola dormindo, Ritinha era prova viva. Molenga, emborcada contra a parede, o canudo entrando pela boca como uma sonda entra na veia, com a mesma função medicinal. As pálpebras pesadas se levantavam com a passagem de um garçom, um gargalhar ruidoso em outra mesa. Um casal cantava Titãs ao violão, encarecendo a conta com seu couvert artístico. O resto da mesa já tinha partido. Eu aguardava o efeito da coca cola medicinal, cortava tecos pequenos de pastel, que segurava próximos à boca de Ritinha, fazia com que comesse na esperança de ajudar a bebedeira passar. Não estava acostumada a beber coitada, e foi vodka com groselha a noite toda, ainda por cima, qual a chance daquilo terminar bem? Mas ninguém ia cortar o barato dela no dia da aprovação do TCC. Depois descolou da parede, coçou o olho, espalhou o rímel, Ritinha tinha a cara do desastre mas sorriu, um pouco mais e já poderia levá-la para dormir na minha casa, ali na rua de trás do Bar Birô, quase sã, semi salva. Parecia começar a voltar para o corpo.

Saí pra tragar o último cigarro antes de pedir a conta, juntando as forças que eu sabia que precisaria para escorar uma Ritinha de pernas bambas. Volta e meia relanceando um olhar para a mesa para saber se estava bem, mas o movimento ininterrupto bloqueava minha visão. Estava quente, a calçada formigava de pessoas, garrafas no chão protegidas entre as pernas como ovos sendo chocados. Sete carros passaram nesse meio tempo. Sempre tento adivinhar quantos carros passam no espaço de um cigarro. Uma espécie de passatempo. Quase nunca acerto. Pisei na guimba que saltitava pelo chão enquanto o oitavo carro deslizava. Pouco adiante, um homem arrastava uma mulher-trapo, se atrapalhava para segurar a moça e avançar. As pernas se espalhavam, o vestido criando rugas e deixando a calcinha aparente para quem bebia na calçada. Estava escuro, e o tapa no pensamento chegou de repente e dizia: mas a moça-trapo é Ritinha. Mini infarto. Avancei para segurar o braço da minha amiga, comecei a gritar para todos ouvirem: Estão tentando levar minha amiga! Esse homem está tentando levar minha amiga!

Pessoas começaram a se desprender das cadeiras, das muretas, das paredes onde se apoiavam e o homem, que agora eu reconhecia como um dos rapazes que conversaram conosco mais cedo, parou de andar, Ritinha nos braços pastosa e olhos ainda sem foco. Larga ela!, ordenei, filmando com o celular e gritando para a grossa onda de gente que se formava que aquele desconhecido tentava levar minha amiga para...onde? Para a rua estreita e escura a um quarteirão dali, nos limites da Vila Olímpia? Para um carro? O homem de queixo cinzento, calças cáqui, camisa colorida, vestido como qualquer colega, qualquer amigo, gritava de volta como se fosse um espetáculo de picadeiro, um tribunal ao ar livre. Os argumentos da defesa: queria ajudar a levá-la pra casa, se conheciam, tinham conversado mais cedo aquela noite, se beijado até - essa parte era verdade. Os meus argumentos: Quem leva uma mulher desacordada de um bar às escondidas? A turba-júri parecia atenta mas não dava seu veredito. Ainda assim, dois rapazes se aproximaram e me ajudaram a levar Ritinha de volta para a mesa.

O bar inteiro me olhava. Sem sair da mesa, tentava atrair a atenção de um dos garçons que passavam agressivamente rápido por mim. Não podia ir ao caixa e deixar Ritinha ali, não depois do que tinha acontecido. Com os braços já doloridos de tanto acenar, ouvi o barulho dos pés da cadeira contra o chão. O homem que tinha tentado levar Ritinha sentou na nossa mesa. Tentava puxar assunto com ela, fala pra sua amiga que você disse que queria ir. Ela precisava usar os dois braços e toda a concentração para sustentar o pescoço amolecido, imagine se estava entendendo alguma coisa. Garçom! Garçom! Nada. Pedi que o homem do queixo cinzento fosse embora. Quanto mais alto eu pedia, mais ele aproximava a cadeira. Na mesa do lado, um grupo me sussurrava que deixasse pra lá, ele estava bêbado. Ora, eu também estava. O álcool em mim pareceu se acender todo em um instante e eu levantei para barrar o garçom que passava sem me atender pela décima vez, você pode peloamordedeus me trazer a conta ou tirar esse homem daqui? Ele deu um passo para o lado informando que ali não se trazia a máquina do cartão na mesa e que o cavalheiro era um antigo cliente de casa e podia se sentar onde bem entendesse. O pouco de prumo que eu tentava manter se foi e empurrei a bandeja no chão e antes que eu me desse conta, o segurança estava colocando eu e Ritinha para fora, depois de me escoltar e carregá-la para o caixa como se fossemos criminosas.

Antes de desabar chorando no sofá de casa, uma caminhada ao redor da quadra, lenta, com uma Ritinha que crescia como uma videira pelos meus ombros. Com o ódio que me impossibilitava de dormir, vomitei tudo em uma thread no twitter, o vídeo, o asqueroso homem do queixo cinzento, os bêbados que apenas olharam, o bar que nos colocou para fora quando deveria nos defender. Após a última convulsão de ódio online finalmente me senti em paz para dormir.

Era quase uma da tarde do dia seguinte quando acordei com sede e milhares de notificações no celular. A thread tinha explodido. A hashtag #BarBirôMachistoide estava nos Trending Topics. Muitas meninas pediam boicote total do lugar. Passei horas bebericando água e lendo tuítes e retuítes comentados que apareciam numa velocidade cada vez maior. Uma influenciadora que ensinava receitas de suco verde fez um vídeo sobre o caso, me desejando força com lágrimas nos olhos. A coisa toda estava fora de controle. Agora não eram só mensagens de apoio, vinham outros defender o bar, falar da chatice do mundo, que eu era louca e sofria de útero histérico. Parei de acompanhar. Fiz uma torrada com ovo pra mim e outra para quando Ritinha acordasse. Não aguentei, era impossível fugir do assunto. A discussão agora tinha passado para o Facebook e os prints da thread do twitter circulavam pelos stories de todo mundo que eu conhecia no Instagram.

Ritinha acordou e correu para o banheiro, mal viu a torrada com ovo, que achei melhor trancafiar no calabouço do microondas. Ela não se lembrava de nada nem ao se ver desacordada no vídeo trêmulo que gravei. Se enrolou de volta no lençol tentando fazer sentido da coisa toda. Desligou o celular e colocou a TV no Faustão. Me sentei ao lado, parte de fora da coxa de uma encostando na outra, mas não prestei atenção na montagem de vídeos de pessoas tropeçando e subindo em cadeiras que logo se quebram. No celular, começaram a surgir outros depoimentos de grosseria e descaso no bar. Às cinco da tarde, o bar emitiu uma nota de repúdio afirmando que não concordava com a atitude dos funcionários e que o cliente não seria mais bem-vindo. Ofereciam para mim e Ritinha uma porção de pastel cortesia, válida de segunda a quinta, antes das 18h. Duas horas depois entrava pela janela o som da música ao vivo, Amor ai lóve iu, Amor ai lóve iu. O fundo do prédio dava para o Bar Birô. Esticando um pouco o pescoço dava para ver uma fatia de calçada, onde as mesas já começavam a encher.


Nathalie Lourenço (São Paulo-SP, 1984) é publicitária e escritora. Integra o Coletivo Discórdia. Em 2017, estreou com a publicação de Morri por educação (Oito e Meio). Pós-graduanda em "Formação de Escritores e Especialistas em Produção de Textos Literários" do Instituto Superior de Educação Vera Cruz. Tem contos publicados em revistas e jornais como Cândido, Revera, Torquato, Philos, Flaubert, Subversa e Vacatussa, entre outras, e participou de coletâneas como Conte outra vez: 30 contos inspirados em canções de Raul Seixas (Escriba Encapuzado, 2019), Mundo-Vertigem (Link, 2020) e Eros Ex Machina: robôs sexuais (Link, 2018). Escreve crônicas em medium.com/@ridicula e também na plataforma Árvore de Livros, incluindo o ebook infantil O Incidente do Cocô Voador e Outras Crônicas.