Um Sol

Mariana Paiva

Ela morreu. Não resistiu, se foi. Que senha abriu aquele breu diante dos pés? Ela-moça deitada na rede quando o telefone tocou. Sentou, escutou e não chorou. O breu. O chão ali se abrindo, seria capaz de descrever milhões de anos depois, "para além da rede tinha um abismo e eu me balançando sem saber de mais nada". Ela-velha era velha, mais do que parecia. Mas tinha mais vida pulsando que ela-moça, muito mais: ela-velha se alegrava de preparar todo dia um almoço diferente, de tomar banho meio-dia, de conversar com Santa Rita empoleirada numa estante no corredor de casa, se alegrava de abrir o siri cozido e comer com os dedos o que estava dentro. Era assim de se lambuzar de vida; como assim, morreu?

Atestado de óbito, meus pêsames. Ela-moça sem saber como enfim tinha acabado aquela noite, chorou que deu sono. O peito-bigorna, vozes e vozes e mais vozes e a moça sem ouvir nem um pio. Oi como você tá sinto muito queria te abraçar poxa foi melhor assim que bom que ela descansou podia ter sido pior como foi que aconteceu que rápido esse vírus é traiçoeiro ela usava máscara eu não acredito logo ela tanta gente ruim no mundo e logo ela mas olhe só vai ficar tudo bem porque você guarda ela dentro de você Deus sabe o que faz tenha fé vai ter missa de sétimo dia?

Ela-moça se demorando na cama no dia seguinte. Querendo enterro pra ir mas enterro não tinha querendo cremação mas também não tinha e nem abraço pra receber. Nada. Queria que acabasse queria voltar do cemitério com a maquiagem borrada a cara inchada e correr pro banho tirar aquela roupa de morte do corpo e começar a viver de novo, sair do banho como uma recém-nascida, virgem de saber o que ia ser dali em diante. Nada disso. Em seu destino estava continuar suja de morte como se ela-velha tivesse morrido sobre o corpo da moça, fraco até mesmo para suar. Ela-velha não ia querer isso. Ela-velha suava enquanto a panela de pressão espalhava apito e ar quente pela cozinha. Um cheiro de suor com perfume do dia anterior na pele retorcida. Ela-moça que nunca mais ia sentir aquele doce azedo. Na ausência aprendeu a comer a dor, dorzinha gostosa que engulo sem mastigar, dorzinha de ficar grande talvez até maior que a dor. Porque veja bem, uma cobra come bichos menores que ela. Na natureza tem o grande e tem o pequeno. Ela-moça só suportaria o mundo sem ela-velha se ficasse grande, muito grande. As carnes crescendo porque ela-velha não estava lá, que era quem consolava ela-moça do mundo, ela-velha tão macia, almofada doce que nem pudim. Ela - a velha - que levava sempre uma toalhinha à praia para enxugar os olhos da menina (que depois virou moça) quando a onda vinha. Carinho felpudo pro sal do mar não arder. Eu morava na areia (sereia) me mudei para o sertão (sereia) aprendi a namorar (sereia) com um aperto de mão, ô, sereia. Sete e sete são catorze (sereia) com mais sete vinte e um (sereia) tenho sete namorados (sereia) mas não caso com nenhum.

Ela-não-tão-velha mostrando a ela-menina a foto do tio de olhos inchados. "Nesse dia ele tava assim porque Agnelo, o melhor amigo dele, tinha morrido". Foi a primeira vez que ouviu falar em morte, e ficou sendo assim: para ela-menina, morte era deixar alguém chorando, de pele vermelha, bem vermelha, igual ao tio, espojado na cama sem ligar pra foto nem nada. Pra morrer bastava não estar na foto. Igual a Agnelo, igual a ela-velha agora.

A rede-abismo. Vai pra lá, vai pra cá, como é que eu vou acordar amanhã, ela-moça pensou. Todo dia morrendo tanta gente. Bota a máscara passa álcool fica longe não chega perto não pode abraçar. Espólio maldito de ela-moça: pra muita gente ia ser só um capítulo no livro de história. Pra ela era sua história toda arrebentada atropelada por uma respiração que deve ter sido num dia de sol. Num dia bom, talvez na hora de tomar um sorvete de ameixa com coco, combinação preferida de ela-velha. Quem sabe a respiração tenha acontecido e logo depois a voz de ela-velha entrava pelos ouvidos da moça dizendo te amo te amo te amo. Sempre três vezes, como uma superstição, ou talvez, ela-moça pensa, pra ter sempre umas declarações a mais pra quando ela-velha não estivesse mais.

Ela-velha esperta, tanto que se chamava comigo-ninguém-pode. Ela-velha sorrindo dando adeus pela tela do celular, daqui a dois dias vai para casa, a médica avisou. E o coração que disse não vai, não vai, acabou-se o que era doce. Era doce mesmo. E brilhava.


Mariana Paiva é baiana de Salvador, escritora, jornalista, professora e doutoranda em Teoria e História Literária pela Unicamp com uma pesquisa sobre as relações entre Brasil e Angola na literatura de José Eduardo Agualusa. É autora dos livros Vermelho-Vida (Patuá, 2018), Canto da Rua (Penalux, 2016), Damário Dacruz: Um homem, uma surpresa (Edições ALB, 2015), Lavanda (Kalango, 2014) e Barroca (P55 Edições, 2011). É co-autora da canção Ondas, escolhida pelo público como Melhor Música no Prêmio Caymmi de 2014, tem contos publicados nas revistas Pessoa, Vacatussa e Livre Opinião, bem como no jornal Rascunho, além de textos publicados em diversas antologias pelo país afora.

Foto: Iracema Chequer

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