Usando sapatos cravejados de pregos

Ian Uviedo

Eu era o garoto no banco. O que observava as coisas que corriam por baixo das arquibancadas. Impurezas na terra e nuvens freadas. Isso foi em outro tempo. Muito antes das longas pedaladas, dos livros e dos ensaios de peças obscuras em porões. Eu era o garoto que olhava para o sol, tentando cegar, parado no meio campo da minha adolescência. Nunca que a torcida vibrou, nunca que fiz pontos numa final, nunca que fui carregado no ombro de outros jogadores, nunca que os holofotes me iluminaram. Só o sol, guardado numa caixa branca dentro do olho. Foram dias de feridas, suores. Perna de pau e outras coisas mais. Eu era o garoto no fundo da paisagem, cobrando escanteios para o passado, que sobre a planície verde já vestia minha camisa e me distanciava de tudo. Agora resta uma televisão, reprisando jogos antigos. Torço igual, vibro igual, como se fosse. Improviso meia-luas, invento parábolas e arcos no céu. Sem identidade, sem memória, medalhas ou troféus. Eu era o garoto caído num canto da quadra, quando a tarde era um osso fraturado e a luz se quebrava em todas as direções. No meio campo do mundo, abri os olhos e ainda enxergava. Nenhuma rede me amparou, nenhum apito encerrou a partida. Eu era o garoto de pernas tortas e chute canhoto. Aquele que observava o que era feito por debaixo das arquibancadas. Mas isso foi antes. Num tempo que eu ainda dispensava com os pés esferas em direção a um futuro imaginado. 


Ian Uviedo é artista, escritor e livreiro na Ria.
Faz parte do grupo de criação coletiva e experimentações gráficas La Tosca, que participa de feiras de arte impressa e publicações no Brasil e exterior, pela qual publicou Recusas (2019), Mal Contato (2019), Os Gatos (2018), Mapa de la Inseguridad (2018) Assovio (2018) e Apocalipses (2018), que variam entre contos, fotografia experimental, desenho e livro de artista. Também integrou as antologias Submarino: relatos rápidos para leitores de fôlego (2018), e Submarino 2 (2019), ambas organizadas pelo escritor e jornalista Ronaldo Bressane. Em 2019 publicou sua primeira novela: Éter - Novela de Narcolepsia, pela paraguaya Editora de Los Bugres.

foto: Camila Kohn

O videopoema foi editado por Ian Uviedo.