Lia Petrelli

13 de agosto, 2021

Tenho acordado pelos rins e pelo intestino.
Tenho trilhado uma atenção sutil do entorno que me cobre por dentro.

                                                            Provocados pelos mesmos rasgos de razão etérea que                                                              se aparentam com a incansável tentativa de serpentes e
                                                            nuances externas.

                           Ao que compreendemos, talvez a vida seja a infinita roda silenciosa que nos
                                                                                                                          atravessa os poros.

Só com esse sentimento é que podemos então alcançar o que não dizemos
e o que sequer pensamos.

As outras coisas que estão no fundo,
latejando incessantemente inertes

                                                                    (h)à nós mesmos.

                 Quero saber da dificuldade e da dor.
                 da minúcia que carrega a resposta.
                 Desejo saber sobre o não saber e porque é que me jogas à beira mar de uma
                 esfinge de pouca proteção.
                 Se sou muito não devo estar de fato no centro mas em toda parte.

                                          Deixo que me guie o pensar-sentir do que sei em âmago profundo.

É difícil me mastigar?

As linhas secretas que tecem a vida começam talvez no lançamento cego,
como escrevi para depois perseguir qualquer que seja o embolado de sutilezas que fui abraçando enquanto ainda era cega.

Por que estaríamos sempre com a cabeça acima da escrita se são de nossas mãos que saem os pensamentos?

Olhar a folha tímida
lá do alto
faz com que a mão perca sua desenvoltura.

Existe uma vida própria que pulsa entre os pulsos e é no movimento que se aquietam as almas.

Sinto que desde que acordei não soube diferenciar a vida de sonho
no sobressalto acordei imersa numa realidade de mania.

É que leva tempo cada coisa a ser aceita.
Que sejam dois lugares acessos e desaguem em mesmo rio.

Pude unir arredio a fluído no campo que adentrei:
descobrindo letras com os olhos das mãos.

Recebi atenta o frio ar que soprava e de memória fluí para os princípios de mim.
Repensar a poesia sob o viés do contra-ponto.
Tomar cuidado com o avesso de nosso fazer.
                                                            rezarp

Mal me ouço reclamar de "tanto antes pensei",
resgatando nuances de pontadas sinestésicas,
límpidas,
distanciadas de agora.

Lidei com raízes submersas na sala de jantar.
Pude me enxergar por completo nos pequenos lugares que alcancei em silêncio.

Me amei com fervura ao dançar o acaso.
Permaneci em sonho desperto ao afligir-me a vida.

Escapei por entre meus dedos quando percebi névoa madura
           - daquelas que se esquecem dos olhos reais e escolhem outros sentidos de ver.

Foto: Carolina Sako 

LIA PETRELLI é artista transdisciplinar. Bacharel em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e Pós-graduada em Psicanálise Clínica pelo Instituto Brasileiro de Psicanálise. Pesquisa desde sempre a escrita em suas múltiplas formas, desembocando em sensações assêmicas derivadas do fazer poético.