William Hill
Susy Freitas

Giro feito uma máquina de engrenagens soltas enquanto o fogo avança da tomada aos panos de prato e deles para as cortinas, sem sinal de término desse circuito, sem ponto de chegada. Lembro então do rascunho do seu conto sobre corrida de galgos para o qual você pesquisava incessantemente. Minha saída para o trabalho era acompanhada por aquela locução comedida e o arfar dos cães que você deixaria rodar na pista de William Hill por horas todas as manhãs, enquanto formigas iniciavam uma peregrinação à pia graças ao achocolatado criando pedrinhas com o leite em pó mal batido em copos variados, sua coleção particular de imundícies. Nenhum emprego, nenhuma expectativa além de extrair dos galgos uma chama há muito perdida. Seu currículo perdido em alguma caixa de spam, meu coringa nas discussões por dinheiro.

Agora vejo seu dorso na cama, extenso como dunas, e a concha que a mão faz na altura da nuca. É o que o fogo me revela no transe. As tomadas apinhadas de adaptadores, meu padrão anatômico para a luz, o qual eu nunca permitia ser mudado. Você sempre chamou a atenção para os perigos da eletricidade, as artérias de fios e ardor dentro das paredes. Você tinha razão, mas, para variar, percebi tarde demais, naquela fratura de tempo em que o que está feito, está feito, sem ponto de reversão.

Todos os homens que amei tinham quedas por torradeiras. Seria um chamado, uma ilusão de ótica de deserto do Saara nas ondas avermelhando o pão? Em você, era o jeito como a manteiga derretia enquanto o Nescau terminava de rodopiar na caneca com o seu sorriso em cima das fatias e o amor lá dentro. Nossa felicidade tinha dessas janelas abertas antes do desejo de ver o mundo queimar.

arte: Maria do Céu, Raphael Morone

O fogo já decora todo o conjunto cozinha/área de serviço, preciso de um plano. Água não, muito básico. Quando criança, tinha um pavor tão grande de me perder dos meus pais que decorei meu endereço completo. Sabia até o CEP. Anos depois, levando o lixo para fora do apartamento, um desfile de instruções e precauções me atraía de maneira a nunca, jamais deixar de conferi-los. Havia as placas ao lado do extintor, da caixa de luz, do mural do bloco reforçando medidas de segurança e higiene, passando pelas placas da piscina e churrasqueira, e chegando, por fim, na do horário para depositar as sacolas na lixeira. Na volta, tudo de novo. O extintor, o extintor do hall. Esse é o plano.

Retiro-o do suporte, checo as travas, o modo de usar fresco na memória. Sinto falta do seu desespero. Você nunca sabia o que fazer. Se batia a cabeça na ponta do armário, gritava. Se um parafuso caía da face da tomada, recolhia-o numa gaveta de quinquilharias. Se os galgos percorriam o circuito sem lhe levar a nenhuma epifania, levantava-se batendo as portas atrás de si. Como eu poderia levar a sério os pedidos de alguém assim para que eu procurasse ajuda? Por que você estava certo justo sobre isso, dentre tantos erros?

O extintor pesa em meus braços e apaga sua imagem por alguns segundos. Avalio o melhor ponto para tentar minar as chamas de crescimento incessante, sem sucesso, quando uma labareda quase sólida dispara da janela, ativando os primeiros gritos dos vizinhos. "Galgos atingem até 70 quilômetros por hora. Potentes em todos os sentidos, possuem um coração maior que o de um ser humano, o que lhes confere impressionante velocidade", recordo o início do seu conto. Você sempre viu o mundo assim, objetivamente. O que lhe levou embora de mim estava na superfície o tempo todo. Constato que as paredes estão bem enegrecidas e sua ausência arde tanto, tanto, tanto.


Susy Freitas nasceu em Manaus (AM). Publicou dois livros: Véu sem voz (Bartlebee) e Alerta, selvagem (Patuá; vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus). Publicou em diversos jornais e revistas literárias, como Mallarmargens, 7Faces, Subversa, Ruído Manifesto, Poesia Primata, dentre outros. Também é crítica de cinema no site Cine Set e autora de publicações na área, como Cine Set e a crítica de cinema no Amazonas (Casa Literária), além de ensaios nos livros organizados pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

foto: Marcelo Moraes


Raphael Morone é santista e mora em Belo Horizonte desde 2015. Escreve, desenha, pinta e busca, em gestos não tão acabados, tocar o tempo outro. Está presente quase sempre no instagram.com/raphaelmorone.

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