Fernanda D'Umbra, linguagens, liberdade e afirmação
entrevista exclusiva com a escritora, atriz, diretora e cantora Fernanda D'Umbra, por Morgana Kretzmann

1. Fernanda, tu é um multitalento, atua, dirige, escreve, canta. Isso é raro no meio artístico. Nos conte então o que veio primeiro? E em que lugar desses tu te sente mais confortável?

R - Acho que a literatura é a primeira paixão que tive na vida. Sempre fui muito amiga dos livros, porque lendo eu podia ficar quieta sem parecer esquisita. Isso não quer dizer que eu fosse uma criança quieta, esses momentos eram intercalados com inúmeras brincadeiras coletivas. Uma delas era o teatro. Eu usava perucas da minha avó, vestidos da minha mãe, fazia shows de música, dublava cantoras e construía histórias com minhas amigas. O mais legal é que eram histórias seriadas: a gente pausava a brincadeira, deixava tudo em seu lugar e no dia seguinte voltava de onde tinha parado, como se estivéssemos numa novela. Ou seja, lá estava - em origem - a atriz, a cantora, a diretora e a roteirista. E de todos os lugares do mundo o palco é onde me sinto mais à vontade, seja ele onde for. Ali, até o medo é legal.

2. Tu atua no cinema, na televisão e no teatro. Há diferenças na criação de personagens em cada um desses processos. Poderia nos falar quais são essas diferenças? Como tu trabalha cada uma delas?

R - Sim, porque as linguagens são distintas. Atuar no palco é estar naquele espaço infinito, que é a caixa preta. Com teu corpo, tua voz e teus pensamentos você é capaz de criar qualquer coisa, criar outro mundo. Em teatro, se eu digo que há um cachorro ao meu lado, há; mesmo que ele não esteja ali. É a ficção na sua máxima potência. Tudo é real, a plateia não precisa ver, porque temos um pacto de imaginação com ela. No cinema você tem outro espectador antes do espectador final: a câmera, e ela muda tudo. Ela recorta o mundo com você. A atriz tem que levar em conta o jogo com a câmera, o diretor e a equipe naquele momento entre o "ação e o corta". Depois já era, não adianta chorar. O cinema tem essa coisa: é agora, faz aí. Eu gosto. Em TV a câmera também está lá, mas a velocidade é outra, há planos longos do cinema que muitas vezes não cabem na TV. É outro jeito de criar. Além do mais, ela tem a possibilidade do espectador mudar de canal, abandonar a série, a novela, o que for. Essa é uma preocupação forte de quem faz TV: a fidelização. É preciso colar o espectador na tela e a interpretação é um pouco moldada por isso também. É o único lugar onde tua interpretação vai direto pra casa das pessoas. Isso faz diferença. E há outras plataformas agora, além das telas de cinema e TV: celulares, computadores e seus produtos - streamings, canais por assinatura, redes sociais... Isso gera mais possibilidades de criação para os atores. Como tudo na vida, pode ser bom ou ruim, depende de como é feito.

3. Numa recente matéria da Forbes, foi mostrado que até mesmo as atrizes mais bem pagas de Hollywood ainda ganhavam menos do que os homens. No Brasil tu acredita que essa diferença salarial está diminuindo? Tu já passou por uma situação dessas? Se já, como foi para ti?

R - Uma vez me perguntaram se faltavam mulheres na direção de cinema e eu disse que faltavam mulheres no cinema, na cardiologia, na biologia marinha, na engenharia civil. Falta mulher em qualquer profissão. E, sim, ainda se paga menos às mulheres. São dados estatísticos, é triste, eu pessoalmente não sei se recebi menos que um homem, mas é possível. Agora, há algo importante: nossa liberdade não nos é dada, como é para os homens. Temos que nos afirmar livres e independentes todos os dias. Isso é um enfado, mas cria uma bela casca do tipo: "não folgue comigo, rapaz, estamos jogando em pé de igualdade ou não estamos jogando."

4. Sabemos que tu está trabalhando como roteirista para uma nova série. Poderia nos falar sobre ela? E sobre teus novos projetos para depois que o fim do mundo acabar?

R - Acabei de escrever uma série que fala sobre o amor e suas infinitas possibilidades e uma série dramática sobre um ritmo musical específico do Brasil. Uma loucura, que demandou uma pesquisa interessante. Agora vou escrever animação, fazer roteiros de desenhos para crianças e isso é um desafio gigantesco, estou empolgada, assistindo desenhos sem parar. Para depois do fim do mundo preparo duas coisas: um solo que estou a escrever e uma adaptação de uma história em quadrinhos que eu sempre quis levar para o palco.

5. Para terminar, poderia indicar um filme e um livro para os leitores da RevistaRia?

R - "Ninguém me Convidou" é a primeira publicação de quadrinhos de Jouralbo Sieber em parceria com seu filho Allan Sieber. Saiu pela "Mórula Editorial" e além do seu traço matador o álbum traz parte da sua biografia e seu trabalho no jornalismo e na publicidade em Porto Alegre no século passado. É demais!

O filme que eu mais gostei de ver ultimamente foi o documentário "They Say I'm Different", sobre a vida da Betty Davis, a cantora, rainha soberana do funk nos Estados Unidos. O documentário, escrito e dirigido por Phil Cox termina com a seguinte frase dela: "Ser diferente é o que importa. É o único caminho para o futuro."


Fernanda D'Umbra é atriz, diretora, roteirista, letrista, compositora e vocalista da banda Fábrica de Animais. Atuou em mais de cem espetáculos de Teatro, doze séries de TV e seis filmes em cinema. Trabalhou como atriz, diretora e produtora em dez companhias de Teatro em São Paulo. Lançou com sua banda dois álbuns pelo selo Baratos Afins. É viciada em histórias em quadrinhos. 

foto: Edson Kumasaka