Poema a um jovem artista
Valéria Barcellos

Os esmaltes têm nomes estranhos e curiosos, que estranha e curiosamente os definem muito bem:
Vermelho gabriela, rosa chiclete, azul deixa beijar. Oneomaníaca me vi pelos nomes e frascos.
Certa vez conheci alguém tal qual os esmaltes.
Não. Ele não era verde-limão ou rosa chiclete nem mesmo azul bebê.
O descrevo com olhos horizontais de cor marrom desejo escuro .
Atrás de uma câmera escura lá estavam eles, os olhos horizontais de um marrom desejo escuro.
Sua tez lisa e precoce era de uma cor clara, claro desejo.
Sua boca, baca, bíbula cor de vinho... Vinho cor de desejo
O corpo esguio e tenro, era tenro desejo.
Seu cheiro era incolor, indecifrável, com cor de puro desejo.
Seus dedos eram finos em formato de desejo puro. Meu desejo. Dedos teus.
Tudo era desejo, tudo era da cor do desejo.
Ele nem sabe que a cor que tem.
Ele não sabe a cor que vejo.
Talvez já saiba, acho até que agora sabe.
Todo ele é multicoloridamente desejo.
E o gosto... ah... o gosto
Tal qual estinhar... gosto de desejo
Pra mim, pra mim ele é todo desejo
Nas suas cores, nas suas dores, nas suas letras nos seus afores a mim concedidos.
É desejo e só. É desejo e ponto.
Não desejo mais que isso.
Meu desejo é colorir em muitos tons.
Um pantone de desejos.
Abecedário de desejos.
Desejos dos desejos. Sabes quando pedes ao gênio: "que multiplique os desejos"?
três desejos são pouco demais, quando muitas cores se tem.
Desejo mil folhas em branco vezes mil para pintar de todas as cores vezes um bilhão o pantone de desejos que cada cor tua... tem...
te desejo em cores...
em cores de desejo...


Valéria Barcellos é multiartista. Cantora, atriz, dj, performer, escritora, compositora, aspirante a fotógrafa e artevista plástica, ativista e milituda. Ela é a vontade humana de dar vez e voz às mulheres pretas e trans. Ela é negra e trans, uma mulher que quer tudo ao mesmo tempo. Uma mulher que é tudo que quiser.

foto: Silas Lima

O videopoema foi editado por Ian Uviedo