Mercearia Completa
Ian Uviedo

A inesperada semelhança entre Rubem Braga e Allen Ginsberg é que, para ambos, o pensamento é livre e gratuito.

Tanto para o cronista capixaba quanto para o beat de Nova Jersey, tentar estipular um preço para o exercício intelectual seria o mesmo que taxar o amor ou um pedaço de pau: impensável.

Deste modo, eu, beatniquim que podia ser visto - até então - dando passeios vagabundos por mesas, garrafas e livros, entro meio infiltrado.

Não sei se me explico bem. Para quem não me conhece, peço licença: me chamo Ian Uviedo, e além de ter publicado zines e um livro, trabalho há três anos tanto na área de produção cultural, junto ao admirável comboio da Balada Literária, quanto na área da performance, junto ao admirável elenco do Trovadores do Miocárdio, assim como em outras eventuais caravanas. Mais recentemente (para ser preciso, há exatos dois meses) fui convidado a ser livreiro da Ria, a livraria que funcionava dentro da Mercearia São Pedro, o que aceitei de pronto, meio a uma festa de luzes, teatro, amigos, caos doce, diga-se.

Conclui-se aí que os meus trabalhos sempre vieram a rebote dos pensamentos, sobretudo os literários, de modo que em determinado momento comecei a ser financeiramente recompensado por algo de valor inestimável, algo que é o seu próprio valor.

Para muito adiante do salário, a recompensação do livreiro assume diversas formas. No mês que estive junto dos livros da Ria - o mês anterior à quarentena - vi, ouvi e experienciei coisas únicas.

Um senhor brasileiro que morava há quarenta anos na França, e pela extinção do hábito havia se esquecido da grafia da língua materna, pediu-me justamente para escrever uma dedicatória que ele me ditasse, na segunda capa de um livro de Manoel de Barros, à sua mãe.

Um cidadão belorizontino aparecendo, depois de um dia vazio na livraria, perguntando-me:

- Tem aí algum livro sobre bar?

A cada indicação minha - João Antônio, Mário Bortolotto, Diane di Prima, Eileen Myles, entre outros - seus olhos brilhavam feito duas pepitas ou duas azeitonas, e depois o vi sumir entre as pernas levantadas das cadeiras, às onze e cinquenta de uma quarta-feira, levando debaixo do braço um pacote com mais de meia dúzia de livros.

Durante o mês de fevereiro e parte do mês de março pude perceber a Mercearia, bar que aos pouco eu ia adentrando, na continuidade do que foi estabelecido lá nos anos oitenta, por caras como Marcos Benuthe, Reinaldo Moraes, Matthew Shirts e Mario Prata, em toda a sua extensão, das fragilidades às grandezas, que naturalmente se confundiam, como em qualquer organismo vivo.

Foi Deleuze quem escreveu que "o território só vale em relação a um movimento através do qual dele se sai". Vejo a Mercearia São Pedro, desde seus encontros casuais entre cervejas e pastéis, até os eventos culturais, como este espaço de negociação; uma espécie de livre mercado de possibilidades, de onde sempre saímos com um livro, quem sabe a publicação dum livro, uma promessa, um show, uma companhia.

Gosto de pensar que lá caminhos confluem, cada vez mais caminhos. A Mercearia como um entreposto das iniciativas, um polvo cuja multiplicação se dá nos tentáculos. Ou o eterno chorinho duma cachaça da casa. Da minha parte, estarei lá, um pé na calçada e o outro na literatura. Perdido em pensamentos, olhando pra rua, as luzes dos carros e o vento que, por falta do que fazer, gira os cata-ventos.

Meio conde, meio passarinho, meio expoente destruído pela loucura. Por ali, entende?



foto: Camila Kohn

Ian Uviedo é artista, escritor e livreiro na Ria.
Faz parte do grupo de criação coletiva e experimentações gráficas La Tosca, que participa de feiras de arte impressa e publicações no Brasil e exterior, pela qual publicou Recusas (2019), Mal Contato (2019), Os Gatos (2018), Mapa de la Inseguridad (2018) Assovio (2018), Apocalipses (2018), Os Rastros da Máquina na Areia (2017) e O Feto do Ato (2017), que variam entre contos, fotografia experimental, desenho e livro de artista. Também integrou as antologias Submarino: relatos rápidos para leitores de fôlego (2018), e Submarino 2, ambas organizadas pelo escritor e jornalista Ronaldo Bressane. Em 2019 publicou sua primeira novela: Éter - Novela de Narcolepsia, pela paraguaya Editora de Los Bugres.