Registros Fósseis
Ian Uviedo

1.

Quando se tem oito anos, tudo que existe é um domingo chuvoso. Às vezes é possível sentir o vento nas plantações de trigo, e uma casinha de madeira branca e telhas vermelhas, emoldurada na parede da sala. A água cai em espalhafato na cerâmica do pátio. No jardim, poças de lama ficam do tamanho de crateras. A seiva dissolvia. No interior flutua um cheiro de chá, roçar de meias e o entardecer vinha anunciar o fim de alguma coisa e o começo de outra. Nessa época, chamávamos de noite. Nessa época não existiam garrafas de vinho, marcas baratas de cigarro, nem galpões pós-industriais nas janelas. As crianças eram tristes. Quando se tem oito anos, os dedos tateiam a prateleira de cima do armário do corredor, procurando por uma resposta. Tirei a panasonic VHS da caixa e voltei pro quarto. Imagine um anjo operando máquinas. Imagine o maquinista de um trem sem destino. A criança desce quieta as escadas, com a câmera na mão. Aos domingos chovia. Mesmo que não chovesse.

2.

Nunca consegui manter um diário, não vejo porque na quarentena seria diferente. Tentei, tentei, mas a tinta da caneta não desce. Como registrar um tempo que não passa? Tenho escrito, estudado, trabalhado muito, mas tudo é permeado por grandes distrações. Quem me visitou antes do isolamento sabe que não tenho vista para a rua. As janelas se abrem para mais janelas. Os prédios são válvulas que se acendem ao anoitecer. Calçadas esburacadas, lambes em postes, pessoas e carros são reflexos de um sonho distante. Faltam onze dias para meu aniversário de vinte e um anos. Vivemos o inverno mais quente da história recente, e também o mais sombrio. As memórias são inesgotáveis? Por quanto tempo posso ficar trancado, me alimentando delas? As ruas por onde passei, os bares em que bebi, bancas de jornal, cinemas, as pessoas que amei, livrarias, cafés, correios, igrejas, cidades que conheci, seriam o suficiente se tudo me fosse subitamente privado? Depois da insônia, quando a cidade acorda e eu posso dormir, no minuto que precede o sono caminho pelas praças da recordação, e em cada noite há uma diferença sutil. Ou será permanência sutil? Se parece muito com a falta. Suspenso no tempo, sem expressão, poderia caminhar infinitamente sobre minhas próprias pegadas? Provavelmente sim. Provavelmente não.

3.

A infância é sem foco. Vibrações de luz nas bordas de cada memória vão provocar distorções no centro da imagem. Numa das fitas daquele domingo chuvoso, minha mãe aparece sorrindo. Está cansada. Veste um suéter verde puído e fuma um cigarro de filtro branco. Quando congelo a cena, rajadas de estática ondulam sua expressão. Play. Tudo é nostalgia. Os registros são ricos em texturas. Tons pastéis. Minha irmã mais velha gargalha no sofá. Meu pai encostado à porta, muito sério. Sou o eixo de uma história sem som, e às vezes apareço no espelho, tão menor que todos. Agora a fita range, estala. O filme se desenrola. Torna boas outra vez coisas perdidas para sempre.

4.

Já faz quatro anos que passo meu aniversário dentro de uma sala de cinema. Isso acontecia devido à proximidade da data com o nascimento de Ingmar Bergman. Bastava o mês começar para que os funcionários dos cinemas pregassem os cartazes de seus filmes nas vitrinas. Assisti Gycklarnas Afton numa dessas sessões, e foi o que mais me marcou, em particular a performance perturbadora de Anders Ek. O ser em seu estado mais lapidado: um palhaço. Era como estar diante de uma grande beleza. Dava vontade de rir ou quem sabe fechar os olhos. Esse ano as coisas serão diferentes. Posso comprar uma garrafa de vinho e gritar na janela. Cairá numa segunda-feira. Faz sentido.

5.

Não tive medo do escuro. A criança se obceca pela possibilidade de recriar o mundo pela imagem. Caí da escada, as costas nos degraus, três pontos no cocoruto. A criança filma todos os detalhes de um pequeno universo, as grandezas logo se esgotam, ou a repelem, com um movimento de mãos. Encontrei uma moeda cimentada no chão do pátio. Uma fila de formigas, o movimento dos gatos em cima da murada que separa sua casa da casa vizinha, a água escorrendo pelos ladrilhos do banheiro, a fumaça sobre a panela de arroz. Fui uma dessas crianças protegidas pela família como um caroço é protegido pela polpa. Se todo o interior parece vazio, a criança sobe à varanda e filma o movimento dos carros na rua, no geral à noite, quanto este movimento é delineado por luzes e sons. A palavra correta era angiosperma, an-gi-os-per-ma. A criança dorme, pensando nas imagens que o dia de amanhã trará.

6.

Não consigo manter o diário porque se escrevo o que penso deixo de pensá-lo no segundo seguinte. Releio o que escrevi e soa falso, parece alguém tendo de mentir na frente da multidão. Melhor ler os diários alheios. Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado, ou o Ofício de Viver, de Pavese. A ausência do inimigo eleva o perigo a proporções desconhecidas; à minha volta olhos invioláveis atestam a presença do que sempre será o irreal - diz Maura. Quando ela escreve o que penso, vejo-me com clareza. Existo mais em seu íntimo do que no meu, tal como se dá com minhas farsas, os contos, os poemas: são documentos adulterados. Dribles. Na oficina do relojoeiro o relógio desmontado não marca hora nenhuma. Assim, assim. Se algo tem registrado o tempo que passa (ou não passa), nessa quarentena, são os vídeos que andei produzindo. Videopoemas. São testes. Comecei com poemas meus, fui divulgando, pessoas se interessaram, e passei a fazer com a voz de amigas poetas (notável como só as mulheres manifestaram vontade de possíveis parcerias). O que importa é que ali há poucas imagens minhas. Os vídeos que produzo, como eu, tem vivido de memórias. Mais especificamente, memórias emprestadas, de um tempo que hoje vai longe, sem mim. O acervo cresce. Inaugurações de zoológicos na Califórnia em 1961, testes de bombas em 1954, imagens do cotidiano de um hospital psiquiátrico na Suécia em 1969, registros microscópicos da evolução de uma semente até tornar-se semente outra vez. Mas de tudo, só o detalhe. A sombra na jaula da sucuri. A brasa. O amareladinho no canto do filme. O embrião da fruta. O que é que nos resta, afinal, cem dias depois? Sonho com uma cidade que visitei enquanto São Paulo desmorona por detrás.

7.

Quando se tem oito anos, tudo que existe é uma panasonic VHS. Conectadas à tv, as imagens se movem como peixes gigantescos e lentos num aquário. Os sorrisos, os detalhes, o movimento, explodem de tanto silêncio. Recarregar a bateria, trocar a fita, sair pro sol, é pesca submarina. Os olhos dos peixes são transparentes, vemos o que se passa lá dentro. Nuvens corriam em marcha-ré. Carros dobravam a velocidade. Tudo por um toque no botão, tomado por tempestades de estática, colunas coloridas e um apito. Quando se tem oito anos, não se pergunta onde as coisas vão dar, onde começam ou terminam. A luz da tarde, pelo vitral, prateia as escamas enormes dos peixes, cujos espasmos na cauda deixam para trás tremulações mínimas, variações quase impossíveis de cor. A água refrata o espaço e agora o seu rosto ondula, exposto numa sala que escurece a medida que o dia morre, o breu tomando conta, conectando passado e futuro, fazendo do presente uma ponte levadiça que não desceu na hora marcada, os tempos se diluem feito seiva na chuva e são as mesmas imagens que você filmou naquele domingo indo ao reencontro de seus olhos enquanto a água distorce o mundo, treze anos depois, você mesmo, sozinho nesta sala com o aparelho VHS e as lembranças em soltura, nesses tempos que somos nós os peixes solitários que se vêem espelhados no fundo do aquário e entendem que não estão sós, se aquela imagem estiver ali, se permanecer no fundo do aquário aprisionado o peixe fantasma, saberemos que não estamos tão profundamente sós.

8.

No centro da cidade as noites continuam ruidosas, o inconfundível som da criatura humana atravessa paredes e entra no apartamento envolvendo texto, copo, cigarro, e qualquer um que se ponha em seu caminho. Assisto outra vez aos videopoemas que fiz, cheios de detalhes que não me lembrava. A verdade é que não há muito a ser dito. Se eles fossem a julgamento, dificilmente eu teria como defendê-los no tribunal. De todo modo, gosto deles, e desejo que sejam vistos, eles que podem ser vistos, diferente de mim, que sem sol e sem olhos vou ficando transparente. Quando vou à janela da cozinha às duas da tarde, que é a hora em que o sol aparece entre dois prédios que me cercam, lambendo panelas, plantas e a pelagem dos gatos, a luz me atravessa, conquistando a cada dia áreas mais remotas. Alguns dizem que a vida virou um eterno domingo, mas não assino embaixo. Tenho escrito, estudado e trabalhado muito. Há outro vídeo em gestação. Já são dez no total, cada um mais mimado que o anterior. Os arrumo como uma mãe ajusta o uniforme do filho que parte pra guerra, com esmero e saudades. Longe vão as manhãs dos meus vinte anos./ E amanhã, vinte e um: amanhã sairei pelas ruas,/ recordando suas pedras e nesgas de céu - escreve Pavese no poema Agonia. Agora eu me pergunto em que direção as coisas caminham. Assisto a estas fitas como se fossem de um outro. Uma infância alheia, um quintal alheio, uma chuva alheia, luzes alheias, e pessoas alheias, parecendo atores ou bonecos esvaziados, sem vida, levados ao vento, revestidos de tristeza pelo fato de serem pessoas do passado, inalcançáveis, aprisionadas num tempo que passou por dentro do enquadramento insensível de uma criança de oito anos. Ninguém pode dizer que não é bonito. Quem sabe um dia alguém faça algo com elas.

9.

Play.


foto: Camila Kohn

Ian Uviedo é artista, escritor e livreiro na Ria.

Faz parte do grupo de criação coletiva e experimentações gráficas La Tosca, que participa de feiras de arte impressa e publicações no Brasil e exterior, pela qual publicou Recusas (2019), Mal Contato (2019), Os Gatos (2018), Mapa de la Inseguridad (2018) Assovio (2018) e Apocalipses (2018), que variam entre contos, fotografia experimental, desenho e livro de artista. Também integrou as antologias Submarino: relatos rápidos para leitores de fôlego (2018), e Submarino 2 (2019), ambas organizadas pelo escritor e jornalista Ronaldo Bressane. Em 2019 publicou sua primeira novela: Éter - Novela de Narcolepsia, pela paraguaya Editora de Los Bugres.