Semayat Oliveira e a escrita geopolítica
entrevista exclusiva com a escritora Semayat Oliveira, por Morgana  Kretzmann


Semayat Oliveira é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e especialista em Cultura, Educação e Relações étnico-raciais pela Escola de Comunicação e Artes da USP. Co-Fundadora do coletivo jornalístico Nós, Mulheres da Periferia, ativo desde 2014. Como documentarista, foi co-diretora do curta Nós, Carolinas (2017), pesquisadora e roteirista do média Quem te penteia (2018) e diretora do média Na Disciplina: samba e cidadania (2019). Na literatura, foi uma das escritoras do livro Heroínas Desta História: Mulheres em busca de justiça por familiares mortos pela ditadura, publicada pelo Instituto Vladimir Herzog e a Editora Autêntica. 


P: Nos fale sobre sua entrada na literatura, o que lhe levou a começar a escrever?

R: Isso é um tanto complexo. Posso dizer que a minha "entrada na literatura" de forma consciente é bastante recente. Eu me formei em jornalismo há 10 anos e, desde então, investi minha carreira no que eu imaginava ser um jeito mais humano de fazer jornalismo. Isso inclui meu desejo desde sempre por contar histórias que priorizem as pessoas, suas trajetórias, complexidades e escolhas de um jeito que seja, acima de tudo, humano e longe da dinâmica metódica e distante do jornalismo tradicional. Mas isso era um impulso, eu nem pensava em jornalismo literário anos atrás. Até que um dia, lá em 2016, ouvi de um querido amigo e também jornalista, a seguinte frase: 'acho que o que você faz é um jornalismo literário'. Preciso ser franca, eu achava a literatura algo distante demais de mim. Nunca achei que eu poderia, por exemplo, vir a escrever um livro, a escrever literariamente como Eliane Brum, jornalista que tanto admiro, ou a escrever ficções, sabe?
A literatura se aproximou de mim em 2017, de supetão. Viajei para um intercâmbio em Nova York. Com uma trajetória fora da curva imposta a mulheres jovens brasileiras com histórias parecidas com a minha, fui 'pra fora', como dizemos aqui. Consegui persuadir minha chefe da época a me demitir e, com o FGTS acumulado desde a minha época de operadora de telemarketing, fui morar com uma amiga antiga, na verdade uma irmã, de minha família. Uma troca justa, eu a ajudaria no que fosse preciso com as crianças e teria um lar por 7 meses. E lá fui eu, para o Bronx. Num dado momento, decidi que faria um curso de 'Creative Writing'. Eu queria aprender mais sobre escritas fora do padrão jornalístico e, por mais que não soubesse onde isso daria, eu queria muito. Comecei a ir nas bibliotecas públicas, nos cafés em que escritores costumavam sentar para escrever e fazer reuniões e foi em um desses espaços que me sugeriram uma escola. Comecei o curso, mesmo com um inglês capenga, e isso foi minha grande mãos dadas com o que vivo hoje. Eu me apaixonei pela construção de personagens, me apaixonei pela ficção, reencontrei uma Semayat de 7 anos que inventava inúmeras histórias e que ouvia da mamãe: 'Você será a minha escritora'. E daí pronto, a jornalista também passou a sonhar em ser escritora. De volta ao Brasil, em 2018, passei o ano me recuperando financeiramente e, em 2019, entrei para o Curso de Preparação do Escritor, na Casa das Rosas, e comecei a estudar com Marcelino Freire no Centro Cultural Barco. E isso foi, mesmo, um abraço. A generosidade de Marcelino me abriu caminhos tantos, como a participação da FLIM, minha primeira Feira Literária até então. Participei como escritora residente e lembro que, após apresentar meu texto, ele me disse: 'Ouça as pessoas reagindo, isso é um sinal". Embora ainda tão falha em seguir o sinal, carrego esse incentivo comigo e sou feliz por ter encontrado Marcelino, demais. Ainda em 2019, fui convidada a escrever para um livro de jornalismo literário com outras mulheres. Publicado em 2020, o livro 'Heroínas Desta História' é um outro divisor de águas em minha vida. Ainda na luta pela literatura e pela minha própria confiança em ser escritora, foi assim que vim parar aqui, com muita alegria, nestas páginas. Ainda com pouco a apresentar, preciso dizer, mas com o coração já repleto de gratidão.

P: Qual a influência das ruas na sua produção literária?

R: É toda. Antes, entre 2014 até 2017, eu escrevia muitas crônicas em minha página do Facebook. Muitas. Todas elas originadas das minhas observações das ruas. Eu gosto de andar sem rumo. Escuto conversa dozoto. Pego trem e metrô sem destino. Puxo conversa no ônibus, no metrô, no trem. A rua, sem dúvidas, me alimenta. Tanto que o projeto jornalístico que mais aviva meu coração, isso sim é o meu avivamento, se chama Nós, Mulheres da Periferia. Com outras cinco jornalistas, a gente nasceu de como as ruas nos afetam. Sejam elas das quebradas ou do centro. Minha escrita é terminantemente marcada pela geografia brasileira, paulista, periférica e centrista. É esse movimento, suas complicações, incoerências e pulsação que me inspiram, sem sombra alguma de dúvidas. Quando minha escrita é fora do jornalismo, eu invento muito. Mas tudo a partir do que eu vejo, ouço, sinto das pessoas, das coisas e das ruas.

P: O que tem lhe perturbado e o que tem lhe dado ânimo nestas últimas semanas de quarentena?

R: O Brasil me pertuba muito. Digo isso porque me sinto incapaz de produzir algo que de fato represente o que eu tenho sentido. É o vazio no prato das pessoas enquanto eu ainda como. É o vazio de propósito e de espaço em pensar o futuro enquanto eu ainda tenho sonhos. Entende? Ás vezes me pergunto: quem sou eu pra ficar aqui de quarentena enquanto as pessoas continuam cruzando as ruas? E isso me pertuba. Não tenho escrito nada novo e autoral, nada que não sejam as escritas jornalísticas para o Nós, Mulheres da Periferia, o que tem sido intenso em tempos de coronavírus, ou de trabalhos já fechados e que também são de escrita. Eu deixei de ter emprego fixo em 2019 para escrever e, olha, dou graças aos Orixás que tenho sobrevivido da escrita. Ainda não as que estão no meu computador esperando a continuidade, as ficções que assombram minha mente e coração até que saiam, mas sobreviver da escrita sendo uma jovem negra brasileira é pra mim uma vitória. Ao mesmo tempo em que tenho amigas queridas alimentando gente no bairro em que eu cresci, Jardim Miriam, zona sul de São Paulo. Cruzando as ruas e dando de comer pro nosso povo, tão na curva da fome nesse período. Elas quase não tem tempo pra sentar, eu trabalho sentada. E brota pertubação daí. Mas se escrever é o que eu sei fazer de melhor, me grudo nisso também e tenho me repetido que é o que eu posso fazer. Então, no Nós, Mulheres da Periferia, tenho buscado contar a histórias das mulheres que cruzam as ruas, que nem sempre têm máscaras e que precisam de cesta básica pra sobreviver, tenho tentado falar das mulheres que se organizam para prover esse apoio. Tenho tentado escrever sobre a não novidade desse cenário desigual, um vírus não teria tal poder. O vírus brasileiro é antigo, nocivo, aniquilador, fascista, racista, eugenista, sexista e tem sido permanente. Só que algumas pessoas têm, agora, a chance de entender isso de outra forma. Mas há ainda aquelas que nunca entenderão. E essas últimas também me animam a escrever, não por elas, mas pelas minhas avós, minha mãe, tias, meu pai, minhas irmãs. Sem grandes conclusões ou disciplina, sem grandes produções ou catarses criativas, é esse mundaréu de coisas que eu sinto.

P: Como se mobilizar politicamente hoje diante de um governo de extrema-direita no nosso país?

R: Lembro que eu tinha ido jogar búzios pouco tempo depois da vitória de Bolsonaro, em 2018. No dia, encontrei uma amiga comunicadora no mesmo terreiro e eu disse pra ela o quanto estava apreensiva. Ela me disse: 'Nossos antepassados passaram por coisas piores e nós estamos aqui'. Isso me acalmou. Temos outras ferramentas hoje e a comunicação é um avanço fundamental desde o início dos anos 2000 pra cá. Não é novo que o Brasil tenha imprensa negra, por exemplo. Temos isso desde antes da abolição. A imprensa feminista, por exemplo, também não é nova, tivemos isso na década de 80. Nesse contexto e pensando na minha trajetória como jornalista e, hoje, também como escritora, digo que o jeito que me mobilizo tem ligação com uma disputa de narrativa. Vivemos uma polarização narrativa há séculos, mas que agora está aí, escancarada. E ainda com um distanciamento financeiro atroz entre os lados, mas ferramentas estão mais acessíveis. Então, a extrema-direita tem seus canais. A esquerda tem os seus e a imprensa aliada a um ou outro lado tem os seus, a imprensa independente ganha força e tem ainda a lógica de influenciadores. É uma guerra, eu pelo menos vejo assim. E vejo avanços cruciais. Vejo outras informações chegando na ponta. Vejo as articulações locais de quebrada consolidando redes fortalecidas de comunicação, vejo mais gente preta, pobre, LGBTQ assinando notícias, artigos, escrevendo e publicando ficção, não-ficção. Essa pra mim é uma disputa importante agora e é a mobilização que mais me movimenta.