Mário Bortolotto na resistência da contracorrente 
Entrevista exclusiva com Mário Bortolotto, por Ian Uviedo

P: Você acha que existe uma cena beatnik no Brasil? Poetas, escritores e artistas que sigam as ideias e os ideais beats tanto em sua produção quanto em seu posicionamento?

R: Eu não acredito que exista. O que eu acredito é na soma de influências. Quando a geração beat aportou no Brasil no início dos anos 80, vários escritores se identificaram com a escrita beat e foram influenciados por ela, mas eles simplesmente somaram a Beat a outras influências que já tinham. Eu me sinto influenciado pela Geração Beat, mas também me sinto influenciado pela Geração Perdida (Hemingway, Fitzgerald, T.S. Eliot) ou mesmo autores do chamado "Brat Pack" (Bret Easton Ellis ou Jay McInerney) e aí eu poderia somar escritores da poesia marginal brasileira, a chamada "Geração mimeógrafo" (Chacal, Charles Peixoto, Bernardo Vilhena ou mesmo Ana Cristina César). Também sou influenciado pelos escritores do boom literário deflagrado pelas Editoras Brasiliense e LPM dos anos 80 (Reinaldo Moraes, Caio Fernando Abreu). Enfim, acho que a nossa geração sofreu muitas influências e entre elas e felizmente, a Geração Beat. Mas mesmo se você pegar escritores brasileiros reconhecidamente identificados com a Geração Beat como Cláudio Willer ou Roberto Piva, você nota que além das influências beat que eles sempre tiveram, inclusive antes mesmo da Beat ser publicada no Brasil já que eles liam os caras no original, suas influências mais visíveis são os escritores considerados surrealistas como Breton, Artaud, Lautréamont e Apollinaire que também eram influências beat naturalmente, talvez por isso eles tenham se aproximado da Beat. Uma das maiores influências do Piva era Jorge de Lima que começou como parnasiano e depois passou para modernista no final da década de 20. Mas é evidente, e eles nunca negaram que sofreram fortes influências da literatura beat. Cláudio Willer inclusive, acredito que seja a maior autoridade em Literatura Beat no Brasil. Mas nunca houve uma cena beat brasileira, mas sim escritores identificados com a Beat que também se sentiam acolhidos e próximos de outras escolas.


P: Você tem um roteiro de vida interessante, muitas vezes retratado em seus textos no Facebook, que passa por Londrina, Curitiba, São Paulo, seminários e repúblicas. Qual a influência destas cidades, mais especificamente das ruas e das pessoas que você encontrou, na sua obra poética e teatral?

R: O escritor além de sua bagagem literária, é também muito influenciado pela cidade natal ou pela cidade que identificou como sendo sua, ou pelas cidades por onde passou. Se você pega um Fausto Fawcett, não há como desvincular sua imagem e sua escrita do Rio de Janeiro e até mais precisamente do Bairro de Copacabana. Assim como Vinícius de Moraes que estará sempre ligado à Ipanema ou Dalton Trevisan e Paulo Leminski que vão sempre evocar a cidade de Curitiba. Eu me sinto devedor às cidades por onde passei e às experiências pessoais que tive nessas cidades, os amigos que conheci, as mulheres que amei. Mas no meu caso, não é uma cidade apenas, já que estou dando um rolê por várias cidades há muito tempo. O período do seminário foi muito importante pra mim, porque acabei tendo uma experiência única de conviver por cinco anos em um lugar onde até prova em contrário se destina a ser um abrigo espiritual onde garotos são educados para servir a igreja. Quer dizer, esse é o princípio, mas para mim que sempre busquei um jeito torto de conduzir a minha vida e sem me deixar guiar por nenhuma espécie de guru ou fazedor de leis, foi o estopim de uma vida libertária. Estou escrevendo um romance sobre esse período e espero finalizá-lo até o encerramento dessa quarentena. Li muitos clássicos lá a começar por Homero que foi uma das minhas maiores influências de adolescência. Depois que fui expulso do seminário fiquei um ano em Londrina aproveitando a desculpa de que não era possível conseguir um emprego por estar em ano de alistamento militar, o que era verdade, mas que também me foi bastante conveniente, passando tardes inteiras na Biblioteca de Londrina lendo todos os livros que me interessavam e que até então eu não tinha tido acesso. Foi lá que descobri Fitzgerald, Hemingway, Henry Miller, John Fante e Bukowski. Depois vim pra São Paulo onde morei por seis meses e comecei a sofrer influências mais específicas de teatro já que me matriculei em uma escola de teatro. Fui conhecer Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Vianinha, Antônio Bivar, Mário Prata, José Vicente, etc. Quando voltei para Londrina me sentia preparado para fundar o meu grupo e começar a fazer um trabalho próprio que foi o que sempre quis. E Londrina nos anos 80 era uma cidade que estava em plena combustão artística. Fiquei amigo de grandes escritores lá como Rodrigo Garcia Lopes, Mauricio Arruda Mendonça, Ademir Assunção, Nelson Capucho, Marcos Losnak, Jotabê Medeiros, etc. Depois veio morar em Londrina também o Augusto Silva que era de Umuarama. Esses caras também me influenciaram muito. E fui conhecendo os músicos de vanguarda. Muitos que fizeram a vanguarda paulistana saíram de Londrina como foi o caso de Arrigo Barnabé, Paulo Barnabé da Patife Band, Robinson Borba e mesmo Itamar Assumpção que embora seja de Tietê, morou um tempo em Arapongas, cidade vizinha de Londrina e ficou amigo dessa rapaziada toda. Eles saíram de lá para detonar a música de vanguarda paulistana. Então eu acredito que os anos 80 em Londrina foram os anos que mais influenciaram a minha trajetória literária. Londrina era uma cidade muito louca e não devia nada para São Paulo naquela época. Posso dizer isso porque morei nas duas cidades nesses anos. Quando vim pra cá, pra São Paulo definitivamente em 1996 eu já me sentia totalmente abastecido e pronto para investir em um trabalho totalmente autoral que já havia inclusive começado em Londrina. Tudo começou lá. Mas a minha maior influência e isso é inegável, ainda são as histórias em quadrinhos que o meu Tio Miguel que morava numa casinha nos fundos da casa dos meus pais junto com a minha avó, colecionava e me deixava ler. Aprendi a ler antes de entrar na escola graças aos gibis do Tio Miguel.


P: O Cemitério de Automóveis, o bar e teatro do seu grupo teatral, é hoje um dos lugares mais emblemáticos e resistentes do centro de São Paulo, mantendo acesa a chama duma rua Augusta que parece se afogar em prédios, empreendimentos elitizados e um público cada vez menos interessado em artes. Como você vê o estabelecimento no meio de toda essa gentrificação e como vocês estão reagindo a este momento em que as pessoas precisam ficar em casa e os bares precisam ficar de portas fechadas, pensam em campanhas, peças virtuais?

R: O Jornal "O Globo" me entrevistou hoje e me perguntou sobre isso. Eu não consigo imaginar nenhuma fórmula mágica de sobrevivência. Nós temos um teatro que é sustentado por um bar que mal consegue pagar as contas do espaço. Nós estamos lá há sete anos e eu nunca ganhei nenhum centavo com a receita do lugar. Todo o dinheiro que conseguimos ganhar com o bar (já que o teatro não dá dinheiro nenhum, porque temos que dividir a bilheteria irmãmente com os atores e técnicos que trabalham lá) é para pagar as contas do espaço e geralmente falta. Já nos vimos no fundo do poço e prestes a fechar por várias vezes. Agora com essa pandemia e tendo que fechar o espaço indeterminadamente, ficou totalmente inviável. Estamos tentando resistir, é claro. É muito triste ter que jogar a toalha nesse momento. Depois de termos enfrentado tantas intempéries, aparece um vírus pra acabar de foder geral. Sem contar o momento político que atravessamos que não é nada favorável e onde os artistas são vistos como párias. Pra acabar de foder tudo, essa semana ainda rolou uma inundação no espaço que está fechado causando um prejuízo desolador pra gente. Mas eu poderia dizer também que estamos acostumados a trabalhar na contracorrente. Sempre foi assim. Mas dessa vez, o panorama futuro é realmente imprevisível. Mesmo que seja encontrada uma solução que pelo menos amenize a questão da pandemia, nós trabalhamos com espaços (bar e teatro) que dependem exclusivamente da presença das pessoas no lugar indo assistir as peças ou simplesmente bebendo de madrugada. E eu não consigo imaginar as pessoas criando coragem para voltar a frequentar tão cedo bares ou teatros. Eu creio que de todas as artes, o teatro é a que mais vai sofrer as consequências dessa pandemia, porque além dessa necessidade da presença das pessoas, o teatro, convenhamos, sempre foi o "Patinho Feio" das artes. As pessoas pensam em ir a um cinema, ou a um show de música, ou a um bar, ou até mesmo à uma corrida de cachorros (estou exagerando, é claro) e só depois talvez se lembrem "ah, e aquele negócio chamado teatro? A gente podia ir lá ver uma peça". Aí a outra pessoa responde: "É uma, mas a gente pode ir outro dia, né?" Isso quando não falam: "Não, teatro não, pelo amor de Deus, teatro é muito chato". Não lembra daquela campanha dos caras do Planeta Diário? "Vá ao teatro, mas não me chame"? Pois é.


P: Você já adaptou para o teatro o Mulheres, de Charles Bukowski, e já interpretou Kerouac, dirigido por Fauzi Arap. Duas perguntas: como foram essas experiências, é a primeira. A segunda: está em seus planos a criação duma peça em cima do texto de algum outro beat, um Burroughs quem sabe?

R: Foi tipo realização mesmo. "Kerouac" era uma ideia que tive quando morava ainda em Londrina. Na época, ainda havia poucos livros dele no Brasil. Acho que já tinha "On the Road", "Big Sur", "Os Subterrâneos", "Viajante Solitário" e "O Livro dos sonhos" e tinha acabado de sair a biografia dele escrita pela Ann Charters. Então economizei uma grana suada e comecei a importar material dele. Comprei um livro de cartas, o diário, consegui "Os Vagabundos do Dharma" em uma edição portuguesa e também importei duas caixas de CDs. Uma da Geração Beat e outra só do Kerouac lendo seus textos. E passei tudo pro Maurício Arruda Mendonça que é meu amigo lá de Londrina, puta poeta e dramaturgo - tradutor de Rimbaud junto com o Rodrigo Garcia Lopes - para que tentasse escrever um monólogo sobre o Jack. Mas eu queria um monólogo que pegasse ele no fim da vida, já decadente, angustiado, rancoroso. Achava que assim, o personagem ficaria muito mais interessante dramaturgicamente. Seria fácil colocar ele na estrada com o Neal Cassady. Ia ficar muito mais atraente para o público, mas como eu já disse, tenho essa propensão para ir pela estrada torta. O Maurício escreveu o texto que ficou muito tempo no fundo da gaveta. Eu passei muitos anos de perrengue em São Paulo. Não tinha a menor condição de produzir nada. Só depois que nós fizemos a Primeira Mostra "Cemitério de Automóveis" no Centro Cultural São Paulo que eu ganhei o Shell e o APCA é que as coisas começaram a melhorar um pouco pra mim, pelo menos numas de subsistência mesmo. Então em 2003 finalmente resolvi voltar ao texto. Chamei o Fauzi Arap pra me dirigir e felizmente ele aceitou. Não teria conseguido sem ele. O trabalho de direção dele foi fundamental para que eu conseguisse enfrentar a difícil empreitada de fazer aquele monólogo. Mas felizmente deu tudo certo e a peça se não chegou a ser um sucesso de público (eu nunca contei com isso, se bem que sempre lota quando eu coloco em cartaz), virou uma peça cult e muito elogiada pela crítica. As pessoas vivem pedindo pra eu fazer de novo. Não sei se ainda tenho fôlego pra enfrentar aqueles assustadores cinquenta minutos, mas talvez ainda consiga criar coragem, nem que for pra me despedir do velho Jack e ter um infarto em cena. rs. Já o Bukowski, eu sequer imaginava que pudesse fazer. Foi uma produtora que trabalhava comigo na época que teve a ideia e perguntou que livro do Buk eu gostaria de adaptar. Pensei e cheguei à conclusão de que o mais adaptável para teatro seria o "Mulheres" porque eu poderia centralizar todas as ações em um espaço só, ou seja, na casa do Bukowski. Ela conseguiu os direitos e a gente fez, mas também só foi possível porque a gente tava com uma grana de fomento (foi o último fomento que a gente pegou) pra pagar os direitos, a produção, a direção, os atores, etc e também foi legal e gratificante pra caralho. O elenco era muito maneiro, a Fernanda dirigiu, as mulheres eram talentosas e os caras que fizeram pequenos personagens também. Eu tava bem assessorado e fiquei totalmente à vontade pra interpretar o Velho. Assisti os documentários dele pra pegar o jeito dele falar, de andar, se mexer e foi divertido. Essa peça além de ser um cult, foi um sucesso de público também, quer dizer, sucesso para os nossos padrões, afinal a gente tem um teatro de 32 lugares. Mas sempre ficava gente pra fora, sempre tinha fila, quer dizer, era um sucesso. Mas eu não tenho nenhum projeto de fazer outro personagem assim. Tudo é possível, é claro. O Maurício Arruda Mendonça me mandou um monólogo sobre o John Fante. É uma ideia. Não conseguiria fazer um Burroughs como ator. Sou muito gordo pra fazer um velho junkie. Rs. Mas poderia escrever e dirigir algo pensando nele. Não descarto a possibilidade.


P: Para terminar, como é hoje sua relação com a literatura beat? Já esgotou tudo, ou ainda há o que descobrir? E se já esgotou tudo, ainda retorna a estes livros?

R: Quero ler os poemas do Kerouac. Só saiu um livro de poemas dele por aqui e são haicais. Quero ler o "México City Blues" e o "São Francisco Blues". Falta sair tanta coisa do Gregory Corso. Só há dois livros de poesias dele traduzidos no Brasil. Ele escreveu um romance também que eu gostaria muito de ler, o "The American Express". E tem uma peça de teatro também, né? E também era muito a fim de ler uma biografia dele porque ele teve a vida mais louca de todos os beats. Ele foi mesmo "O último Beat" como naquele filme que fizeram sobre ele. Dá pra sacar um pouco como ele era um personagem por demais interessante, talvez tão interessante quanto Neal Cassady, pelo livro "Quando eu era o tal" do Sam Kashner. E sua vida parece quase inacreditável. Abandonado pela mãe quando criança... só muitos anos depois é que ele descobriu que a mãe na verdade era espancada pelo pai e teve que fugir, mas que ela tentou reaver o filho sem sucesso. Ele se reencontrou com a mãe e nos últimos anos saíam juntos para jogar blackjack nos cassinos. Corso morou na rua durante muito tempo, depois foi parar num orfanato, foi preso muito jovem...porra, o cara foi preso e era meio que protegido do gângster Lucky Luciano. Aproveitou para ler todos os clássicos na cadeia. Depois que saiu da prisão conheceu Kerouac e o Ginsberg que foi apaixonado por ele sem sucesso já que o Corso era hétero e mulherengo. Foi aceito em Harvard e conseguiu ficar morando lá como poeta residente só porque os caras piraram nos poemas que ele estava escrevendo e mostrou para eles. O cara teve a manha de chegar um dia atrasado para a lendária leitura da "Six Gallery", ficou um tempo com Henry Miller em Big Sur, foi pro México encontrar Kerouac que estava escrevendo "Tristessa". Foi pra Tanger com Ginsberg encontrar Burroughs, morou no "Beat Hotel" em Paris, vendeu enciclopédias na Alemanha, andava com Chet Baker em Amsterdã e nunca conseguiu entender como a Beat acabou virando moda com a rapaziada querendo se parecer com beats se vestindo com boinas, calças de toureiro e barbas, e carregando bongôs. Corso dizia que jamais teve barba, não tinha boina e não conseguia entender bongôs. Se a gente for pensar bem, o que Kerouac com aquelas camisas de flanela e botas de lenhador tinha a ver com esses caras de boina? Kerouac tava mais pra um pré grunge, né? Mas então, o que eu tava falando? Então, o Corso teve uma vida louca pra caralho. Porra, ele morou no Chelsea. Queria muito ler uma biografia dele. Agora com a morte do Michael McClure, talvez publiquem mais algum livro dele por aqui também. E tem o Gary Snyder e o Ferlinghetti que estão vivos. Enfim, há tanto o que ser publicado ainda. Há tanto pra eu ler. Espero ter tempo pra tudo isso. 


Mário Bortolotto é escritor, dramaturgo, poeta, ator, diretor do Grupo de Teatro "Cemitério de Automóveis" e vocalista da banda de rock "Saco de Ratos". E tá de saco cheio de ficar em casa. 

foto: Renato Parada