Nara Vidal e a raiz do amor profundo
entrevista exclusiva com a escritora e livreira Nara Vidal, por Morgana Kretzmann


1 - O amor é assunto presente em muitos romances, filmes e peças de teatro clássicas. No teu último livro, Sorte, que foi um dos vencedores do Prêmio Oceanos 2019, tu trata de racismo, de violência e da amizade entre duas mulheres. Entendendo a amizade como uma forma de amor, qual a importância desse tema na tua escrita?

R: Essa pergunta é interessantíssima. Eu não premeditei a relação de amizade das duas personagens principais no texto de Sorte, mas naturalmente elas criaram um elo por viverem relações abusivas e submissas muito semelhantes, apesar de uma delas sofrer violência física mais frequente e gráfica na novela. O curioso é que esse tema de amizade entre as mulheres como uma forma de amor é riquíssimo, especialmente se contextualizado em culturas latinas, por exemplo. Eu cresci numa cidade muito pequena, tenho duas irmãs e era aceitável que fôssemos criadas para uma espécie de competição entre as colegas de escola, as amigas. Às vezes existe uma cultura que reflete uma incansável tentativa de rebaixar a mulher e que é executada por outras mulheres. Isso é gravíssimo e tem consequências sérias para as relações de amizade que exigem confiança. São amizades que já nascem fracassadas ou fragmentadas porque trazem um viés de insegurança atrelado à constante necessidade de autoafirmação. É muito negativo esse apego a uma cultura que coloca mulheres contra mulheres. É a primeira manifestação de machismo que as próprias mulheres, desde muito cedo, adotam e perpetuam. Portanto, o tema da amizade como uma forma de amor entre mulheres é certamente um no qual eu ainda quero me aprofundar em alguma narrativa. Há camadas impensáveis nesse argumento que é tabu e por isso merece ser explorado na literatura.

2- Tu está trabalhando num livro novo, poderia nos contar um pouco sobre ele?

R: Neste momento eu tenho três histórias que quero contar. A que está mais próxima de ser publicada (já tem editora, mas ainda não posso contar) é uma história de amor, ou assim a narradora imaginou que fosse. É uma narrativa dividida em Superfície, Profundo e Fundo. É escrita em primeira pessoa e a narradora fala de dois amores que impactaram a sua vida de maneira muito profundamente catastrófica: o amor da e pela mãe, e o amor de e por um homem. Em ambos os casos, o relacionamento abusivo e de poder (a mãe é a autoridade e o exemplo, o homem dá a ela companhia e um abrigo contra o frio de Londres) motivam a personagem em todo o percurso narrativo à fuga. Ela tenta escapar da proteção opressora da mãe e da relação de sexo e dependência que tem com o homem, o namorado. Ela cresce negando a autoridade da mãe através de uma promiscuidade consciente. Mais tarde, no relacionamento com o namorado, ela vive uma tentativa de fuga através da traição, imaginando que algum outro homem pudesse salvá-la da dependência que sofre. O final não é feliz, naturalmente, e a conclusão é a parte chamada Profundo que é, na estrutura do romance, a parte do meio. É uma narrativa muito crua e acho que tem um vigor que corresponde à vida da narradora. É completamente diferente do Sorte porque em Sorte a estrutura era a de uma novela bastante tradicional e há heroínas claras na trama. Esse próximo romance (que eu ainda não consegui decidir o título) tem fragmentos e fluxos, e a narradora é tão vítima quanto agressora. Enfim, é bastante diverso, exatamente como eu quis que fosse, no sentido de jamais repetir o que já foi feito. Eu acho que arriscar é a melhor parte na hora de tentar escrever.

3 - Quando tu te mudou para Londres? O que te levou a morar lá e o que te faz permanecer? Que tipos de amores tu deixou para trás aqui no Brasil?

R: O que me levou a morar em Londres foi o amor. Digo isso assumindo todo o clichê que carrega, mas eu vim para cá porque me apaixonei pela literatura inglesa, especificamente por Shakespeare. Depois entendi que o Bardo era uma base fundamental para apreciar as ricas tradição e inovação literárias da Inglaterra. Mas teve um momento que fui apaixonada por ele e meu plano era fazer um mestrado aqui e talvez voltar ao Brasil para dar aulas. Mas aí, outro amor entrou no caminho, que foi essa paixão descontrolada que eu sinto por Londres até hoje! Já são dezenove anos aqui e sempre que chego no centro da cidade, sinto me faltar o ar, o coração em descompasso, olho em torno e sinto que achei um lugar que me faz feliz, assim mesmo de fora para dentro. Sou feliz em Londres. O que deixei no Brasil foi muita coisa. O preço a pagar foi altíssimo quando percebi que não voltaria. Mas acho que a gente não deixa amores para trás. Pelo menos o amor de família, amigos verdadeiros. Esse tipo de amor nos segue, anda com a gente e amadurece de acordo com as nossas mudanças. Já o que me faz ficar é também o amor: meus filhos. Uma hora a gente cria raíz de alguma maneira e aí o estado passa a ser permanente, pelo menos por um tempo.

4 - Teu amor pela literatura escrita em língua portuguesa tem feito tu criar e trabalhar muitos projetos com o objetivo de disseminar a literatura escrita nessa nossa língua pela Inglaterra. Tu poderia nos falar um pouco mais sobre esses projetos?

R: Honestamente, faço coisa demais. Às vezes preciso mesmo parar e dar um tempo, senão, quando vejo, estou com mil projetos em desenvolvimento. Eu amo estar ocupada e a literatura é o que me dá mesmo prazer. Mas tudo é trabalho voluntário e isso me exige muito afinco. Também acredito que o constante interesse que tenho pela literatura brasileira é exatamente por estar longe. Talvez eu fosse mais calma se morasse no Brasil, não sei. Eu gosto de participar como posso e sei o quanto a divulgação faz a diferença. Por isso, tiro o meu chapéu para colegas que promovem esse compartilhamento de ideias e trabalho de outros autores. Iniciativas como a RevistaRia são um ótimo exemplo. É muito importante sair do próprio eixo e apoiar os colegas. O meio já é tão minúsculo e dividido. Nós somos pouquíssima coisa e fechar portas é uma bobagem. Além de tudo isso, meus projetos e iniciativas aqui me dão essa impressão de manter a minha língua viva. Ela passa a ser minha ferramenta de trabalho e isso me faz sentir com uma identidade mais definida. Quando você é uma imigrante, um estrangeiro, essa sensação de não perder o elo de origem pode salvar o dia!

5 - Para encerrar: das histórias de amor da literatura universal, tem alguma da tua preferência? Qual seria, e por que?

R: Acho que as melhores histórias de amor da literatura ficaram escondidas ou apenas sugeridas. Mas há algumas dinâmicas que me interessam explorar, observar com mais atenção e me aprofundar. O forte domínio e imposição masculinos sobre mulheres escritoras entre casais literários é muito interessante. Por exemplo: muito se fala de Sylvia Plath e Ted Hughes, sobre os ciúmes que ela tinha dele, sobre as traições dele. Mas mais curiosa e complexa é a natureza competitiva entre os dois como colegas. O domínio territorial do masculino naquela época fez Plath se sentir subestimada e ela escreveu sobre isso em muitas cartas, além de comentar numa entrevista cômica e amarga à BBC, quando perguntada sobre poetas homens contemporâneos, que não se lembrava de nenhum com talento suficiente para ser citado. A época da entrevista coincide com um período em que eles estavam separados. Essa mesma arrogância e essa mesma característica abusiva masculina aconteceu também, ainda mais abertamente, entre Zelda e F.Scott Fitzgerald. Pode-se especular que tanto Hughes quanto Fitzgerald tivessem inseguranças diante do talento das parceiras que talvez representassem para eles uma espécie de ameaça. Essas histórias com características mais complexas e sombrias me causam mais curiosidade do que aquelas que aparentam satisfação, harmonia e contentamento. O curso do amor nunca fluiu suavemente, escreveu William Shakespeare.


Nara Vidal é mineira de Guarani.

Formada em Letras pela UFRJ, tem um mestrado em Artes pela London Met University.

É autora de livros para adultos, crianças e jovens. Tem uma coluna semanal do caderno de cultura do A Tribuna de Minas. É editora do suplemento literário Capitolina Revista, parte da sua livraria Capitolina Books que se especializa em autores contemporâneos em língua portuguesa. Idealizadora do Brazilian Translation Club que acontece em parceria com University College London.

Ministra cursos livres que podem ser encontrados no site da capitolinabooks.com

Foi uma das vencedoras do Prêmio Oceanos em 2019 com o seu romance de estreia Sorte, traduzido para o holandês e publicado este ano pela editora Nobelman.

Vive na Inglaterra desde 2001.

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