Duas notas sobre o filme da morte
J. P. Cuenca

1. O imóvel

Não faz muito tempo, cheguei à conclusão de que rodei esse primeiro filme por causa de um imóvel. Eu queria passar um tempo morando ali na Rua da Relação, entre Inválidos e Gomes Freire, e levantar um projeto de longa-metragem transformando a quadra em locação me pareceu um bom caminho. A produção teria dinheiro para a residência que eu queria fazer por ali, no coração da Lapa em tempos pré-olímpicos, e, claro, eu sairia dela com um filme e um livro debaixo do braço. Depois eu descobriria que nada, ainda mais no cinema, é tão fácil. Acabada a filmagem, eu passaria mais quase dois anos tropeçando em mim mesmo dentro de uma sala de edição antes de conseguir colocar o trabalho na rua.

Entendi que precisava morar naquele endereço numa das primeiras vezes em que passei por ali, depois de saber sobre o homem que havia morrido na Rua da Relação, 47, com minha certidão de nascimento no bolso. Ele foi identificado por esse documento que nunca perdi, com meu nome, sobrenome, filiação, data de nascimento e números impressos no Registro de Ocorrência da morte e no Laudo do Exame Cadavérico, entre outros documentos comprovatórios do (nosso) óbito. Meu duplo morreu na Lapa em 14 de julho de 2008, quando eu estava em Roma, lançando a tradução de um romance, 'O dia Mastroianni', numa livraria que não existe mais no bairro de Trastevere, a Libreria del Cinema.

O Sérgio (esse era seu nome real) morava - e morreu - numa ocupação no primeiro andar do esqueleto de um prédio cuja construção estava parada há décadas. Quando fui ao endereço presente no registro de ocorrência da minha própria morte, encontrei um prédio em processo de reforma querendo vender-se como 'flat' de uma Lapa num imaginário processo de gentrificação. E encontrei, entre crateras na calçada e poeira de obra, um café moderninho no térreo chamado "Café Trastevere", nome absolutamente incomum para um comércio por ali.

A coincidência me pareceu tão absurda que mal a menciono no livro, e no filme ela simplesmente inexiste. Mas isso foi um dos principais ímãs do processo. Houve outros e aqui só acrescento um: no mesmo dia dessa visita, fui beber num armazém na Rua do Senado, a uma quadra dali, onde encontrei um livro cortado em formato de revólver como objeto à venda numa prateleira. Era o Fausto, de Goethe. Eu carregava o mesmo livro na bolsa, claro.

Eu não teria como saber, mas ali já estava sendo capturado de forma irresistível para o palco de um longa-metragem, de um romance de ficção, e principalmente de um futuro suicídio ritual, atraído para aquele ponto em que todas as direções do tempo se encontram e se anulam num instante puro e vazio, onde todas as cores tem o mesmo brilho imortal e obscuro, onde não há mais verdade - e tampouco mentira.

2. O ator

Algo acontece quando você assume a missão do personagem em campo e processo de pesquisa, pré-produção ou escrita: tudo vira ficção, ao mesmo tempo em que nada é ficcional, pois qualquer ficção é imediatamente convertida em realidade. Quando seu corpo e mente são usados como plataformas de um experimento ficcional (ao menos em origem) todos os seus atos e palavras estão comprometidos por um jogo cujas regras são sua própria criação. Só que você está na rua, máquina disfuncional em ilusão autobiográfica, operando (aparentemente) sob as regras deste mesmo mundo. Por isso, talvez agora não haja mais linha que separe o laboratório, a galeria, o livro e o palco do resto - do que não é invenção, não é arte, não é processo: o que sobra, aquilo que chamam realidade.

Navegar por essa incerteza enquanto método é certamente uma baita falta de respeito às fronteiras, não só entre diferentes domínios artísticos, mas aos próprios limites entre a arte e a vida. Se dizer que a literatura vem perdendo sua suposta 'autonomia' é uma asserção popular em certos círculos, o que esse procedimento indica é que tais cordas há muito roeram num caldo de ambivalência. Pois, ao menos para esse detetive navegando um submarino por becos pouco iluminados da Lapa ou da Golden Gai, em Tóquio, a arte já não pode mais ser determinada por contraste com aquilo que não é arte, bem como o real em oposição à ficção.

Ainda há livros, aparições públicas, e até um filme onde um escritor alucinado improvisa falas com não-atores e invade blocos de carnaval e pontes em demolição ao acaso, sendo seguido por uma diligente equipe de cinema respeitando, em contraste, severas regras de enquadramento, luz e fuga. Mas durante aqueles meses do ano da Copa do Mundo de 2014 no centro do balneário semi-demolido, houve algo mais secreto que a literatura, mais oculto e vanguardista que um filme de festival arthouse, ainda mais anti-mercado e fora das estruturas: um avatar atuando a si mesmo, fora das câmeras, em estado de performance, delírio ou coisa que o valha, para quem lá estivesse de olho no proscênio do teatro.

Ou talvez, como o artista da fome do Kafka, o furibundo homem de capa de chuva encenasse muitas vezes seu espetáculo para uma pessoa: ele mesmo. No conto, como ninguém é capaz de passar dias e noites ininterruptamente vigiando sua cela, não há quem possa dizer se o jejum é mantido sem falha. Só o artista pode saber disso e ser o espectador satisfeito do seu próprio jejum. São as melhores partes, sempre, de qualquer obra: as que não ganham qualquer registro.

Ainda assim, cedo ou tarde, o masoquismo (aqui às vezes traduzido num vago sentimento de indecência) vencerá. Cedo ou tarde, o ator volta a escrever, o escritor a buscar às luzes. E ambos se arrependerão disso - como sempre, não vai fazer nenhuma diferença.


foto: (Photomat - Berlim, 2019)

João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro em 1978. É autor de cinco livros, traduzidos para oito idiomas. O seu último romance, Descobri que Estava Morto, ganhou o Prémio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, tendo sido escrito em simultâneo com a rodagem do filme "A Morte de J.P. Cuenca", exibido em mais de quinze festivais internacionais e participante do primeiro Biennale College do Festival de Veneza. Em 2007, foi selecionado para a lista de 39 jovens autores mais importantes da América Latina pelo Festival de Hay, e em 2012 escolhido pela revista britânica Granta um dos 20 melhores ficcionistas brasileiros com menos de 40 anos. Atualmente é mestrando do Programa de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, em cooperação com a Universidade de Colónia.

Para ver o longa-metragem "A morte de J.P. Cuenca", vá em www.jpcuenca.com e acesse a barra FILME. Há um link aberto disponível no endereço.