A representação das mulheres no terror
Michelle Henriques

Eu vejo filmes de terror desde que eu me entendo por gente. Minha mãe gosta de falar que viu Evil Dead quando estava grávida de mim e por isso eu nasci desse jeito. Eu me lembro que quando eu tinha 13 anos eu aluguei toda a prateleira de terror da locadora da minha rua. Alguns anos depois fiz amizade com pessoas que gostavam do gênero e comecei a conversar mais a respeito. Em 2010 eu criei um blog para falar de terror, mas foi só em 2013 que eu passei a me entender como feminista e comecei a pensar mais no que eu assistia.

O terror é um gênero que objetifica mulheres. Não importa de que vertente do terror a gente esteja falando, sempre vai ter uma mulher padrão, nua e gritando, tomando atitudes de inteligência questionável e servindo apenas para ter seu corpo exposto. Isso é uma merda, eu sei. Eu fico bem triste de saber que os corpos de mulheres são explorados ainda nos dias de hoje, inclusive por diretoras. Revenge, por exemplo, é um filme que eu não gosto (tirando as cenas gore, que são realmente boas), mesmo sendo dirigido por uma mulher. Aqui nem vou entrar no mérito do rape revenge, que é um dos subgêneros que eu mais odeio. Eu costumava gostar, colocar I spit on your grave nas minhas listas de favoritos, hoje acho um absurdo.

Outro subgênero que eu não consigo entender como é construído é o home invasion. O meu desconforto veio depois de assistir Hush. Parei para pensar que apenas mulheres e famílias são aterrorizadas em suas casas. Nunca vi um filme em que um homem é perturbado e torturado sem um motivo, apenas por diversão do algoz. Mais um exemplo de como o terror ainda ter que mudar muito.

Eu acompanho o site da Graveyard Shifter Sisters, no qual a autora costuma abordar a representação de mulheres negras no terror. Felizmente hoje temos a Lupita Nyo'ngo e Jordan Peele que estão fazendo algo de diferente no gênero, mas até pouco tempo atrás quase não víamos protagonistas negros no terror. E pessoas gordas? São sempre ridicularizadas, sempre as que morrem primeiro, as burras, as lerdas. Creio que em todos os gêneros do cinema ainda é difícil encontrar uma pessoa gorda protagonista apenas existindo, sem que seu peso seja citado. Então me sinto até ingênua de imaginar que colocariam uma final girl gorda sem mencionar o tamanho de seu corpo.

Sempre dizem que devemos reclamar com os realizadores de cinema, e não com os fãs machistas, que a mulher sempre foi sexualizada no terror, vide os filmes da Hammer. O racismo era normal, escravidão e etc., a gente continua reproduzindo esses preconceitos? Quer dizer, tem a escória que sim, mas as pessoas normais não fazem essas coisas. O mundo está em constante evolução, a gente não se agarra ao passado e evita mudanças. Não mudar e aceitar tudo é confortável para os homens, mas para as mulheres nunca foi uma opção.

Gosto muito do filme Brinquedo Assassino, clássico dos anos 80, que tem uma personagem mulher bem escrita. Ela não está ali para ter seu corpo exposto, ela só quer proteger seu filho. O Massacre da Serra Elétrica tem uma personagem forte, assim como as mulheres de Slumber Party Massacre. As cenas nas quais elas aparecem seminuas possuem um contexto, e a diretora brincou com os estereótipos. No Brasil temos ótimas representações como As Boas Maneiras e Trabalhar Cansa.

Ainda temos muito que aprender, inclusive nós mulheres, mas peço aos homens fãs de terror que ouçam o que a gente tem a dizer. Saiam dessa zona de conforto, se questionem e tentem mudar alguma coisa para tornar esse mundo minimamente mais saudável para nós.

Indicações da autora

O Mundo Odeia-me (Dir. Ida Lupino, 1953)

Este talvez seja o único filme do cinema noir dirigido por uma mulher. Gosto muito do trabalho da Ida Lupino aqui, que mudou totalmente a dinâmica do gênero. Não há female fatale, apenas dois homens que são sequestrados por um serial killer. O filme é carregado por uma tensão absurda.

Quando Chega a Escuridão (Dir. Kathryn Bigelow, 1987)

Antes de ganhar um Oscar com filme sobre guerra, Kathryn Bigelow nos presentou com essa pequena pérola do terror. Um faroeste futurista sobre vampiros, com Bill Paxton novinho num papel de bad boy

Garota Infernal (Dir. Karyn Kusama, 2009)

Na época em que esse filme saiu eu assisti e não dei muita bola, mas hoje ele é um dos meus preferidos da vida. A diretora declarou em entrevistas que o filme foi vendido de forma totalmente errônea. A imagem sexy de Megan Fox foi usada exaustivamente, quando o filme na verdade se trata de uma metáfora para a violência sofrida por uma mulher, bem como a sua vingança.  

Zumbis do Mal (Dir. Gloria Katz e Willard Huyck, 1973)

Gosto muito da estética do terror dos anos 70, década dominada pelo ótimo terror italiano, mas esse aqui está entre meus preferidos. Uma jovem, depois de tempos sem notícias do pai, decidi ir até a casa dele para descobrir o que houve, mas o vilarejo todo é bastante estranho e ela se vê numa situação bizarra. Um detalhe: Gloria Katz não foi creditada como diretora. 

Dans ma peau (Dir. Marina de Van, 2002)

Marina de Van escreveu este filme, dirigiu e atuou. Ela interpreta Esther, uma jovem que após sofrer um pequeno acidente em que machucou a perna se torna obcecada com seu próprio corpo. Uma obsessão que chega a limites extremos. 

O Animal Cordial (Dir. Gabriela Amaral Almeida, 2017)

Não só de Zé do Caixão vive o terror nacional, e as mulheres têm realizado um cinema de gênero impecável. O Animal Cordial, que traz Murílio Benício num dos melhores momentos de sua carreira, é um filme claustrofóbico, crítico e cínico. Um dos meus preferidos. 

Michelle Henriques é louca dos gatos, trabalha com livros e ama filmes de terror. É uma das coordenadoras do Leia Mulheres, escreve sobre cinema no Cine Varda e fala de terror no The Witching Hour.


www.michelledas5as7.net

foto: Rafael Sachs