Ramon Nunes Mello no mar de cada sonho
entrevista exclusiva com o poeta, escritor e ativista Ramon Nunes Mello, por Ian Uviedo


1. Para você, qual a relação entre poesia e militância hoje?

R: A poesia, o gesto poético, é um ato político. É assim que compreendo a poesia, a literatura, as artes de forma geral. A poesia é política, os sentidos se estabelecem no outro. Escrever poesia é resistência, uma forma de protesto. Resistência "da sutileza contra a barbárie" - como ensinou Barthes. Compreendi mais a poesia quando passei a atuar como ativista de hiv/aids, no sentido de entender qual poesia me interessa escrever. A poesia é o exercício da liberdade e alteridade, que pode ampliar a voz dos que são excluídos, mas não confundo com a militância. Não acredito que a poesia está em função de nada. Escrevo poesia porque é a minha forma de lutar, de me sentir vivo. O poema me ensina a não morrer, a resistir. Como dizia o poeta Roberto Piva, "a poesia pode não acabar com a guerra, mas, ao menos, evita que as pessoas deixem de sonhar".

2. O livro que você organizou, Tente Entender o Que Tento Dizer: poesia + hiv/aids (Verso Brasil, 2018), que reúne poemas de Silviano Santiago, Angélica Freitas, Viviane Mosé, Bruna Mitrano, Italo Moriconi, Marcelo Ariel, entre outros, é tocante por lançar um olhar humano, artístico e plural sobre a presença da hiv/aids na sociedade e, por extensão, na cultura. Pode nos contar como foi o processo de construção do livro, e como tem sido o retorno desde a publicação, em 2018?

R: Criei a antologia Tente Entender o Que Tento Dizer: poesia + hiv/aids por sentir falta da presença do hiv/aids na literatura, na prosa e, principalmente, na poesia brasileira. Primeiro para elaborar o projeto, me norteei num verso que escrevi no livro Há um mar no fundo de cada sonho (Verso Brasil Editora, 2016): "a linguagem / o verdadeiro / vírus". Eu queria ampliar a reflexão sobre o vírus e a linguagem que eu passei a ter a partir do momento que peguei o diagnóstico positivo para hiv. O tabu em torno do hiv/aids é enorme e persiste até hoje, por isso não é abordado na literatura, assim como não é abordado abertamente na vida, no dia a dia. Resolvi fazer essa antologia como ato poético, portanto, político. Por que não podemos escrever sobre hiv/aids na literatura, sem ser um depoimento, tendo cuidado com a linguagem? Então, não restringi a seleta de poemas apenas para pessoas que vivem com hiv/aids, pois compreendo que todos lidamos direta ou indiretamente com o vírus, optei por apresentar uma cartografia de poetas de diferentes gerações e sorologias e suas percepções sobre o tema. O fio condutor foi a proposta estética. Reuni os poetas sem perder a urgência dos discursos diante das mortes que ainda ocorrem em decorrência da aids - principalmente entre as populações mais vulneráveis como negros, pobres e gays.

O retorno a respeito do livro tem sido bonito, fico contente em saber que o livro, os poemas circulam, principalmente, entre pessoas que desconhecem o tema do hiv/aids. Tem algumas pessoas estudando o livro na universidade, no Mato Grosso, em Brasília, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O pesquisador Leandro Noronha, da área de Letras, tem feito uma pesquisa atenta sobre a abordagem do hiv/aids na poesia. Minha intenção é provocar uma reflexão crítica sobre hiv/aids através da subjetividade da poesia hoje. Acredito que é, mais do que necessário, urgente criar novas narrativas sobre hiv/aids. Podemos fazer isso através da linguagem, e as artes podem ser grandes aliadas.

3. Esta edição da RevistaRia tem como tema o amor e suas diversas manifestações. Nesse cenário pandêmico, fica difícil não pensar no "Amor nos Tempos de Corona", parodiando aqui G.G. Márquez. O isolamento social faz com que precisemos desvendar novas formas de afeto. Como você está vendo essa transformação? O que mudou e o que ainda pode mudar?

R: É uma transformação na humanidade, dolorida. Acredito que amor é o grau último da cura, no sentido, mais amplo, de nos levar às mudanças necessárias. Tenho atentado mais para o meu autocuidado e também para o cuidado em relação ao outro, de quem está ao redor. Costumo dizer que sou "realista esperançoso", como se definia Ariano Suassuna. Apesar de todos os pesares, do tempo absurdo em que vivemos, sou um homem de esperança. Acredito que se buscarmos ser mais solidários e menos preconceituosos, podemos realizar uma grande transformação. Há muito para mudarmos, principalmente no que diz respeito à desigualdade social, talvez o maior dos nossos desafios.

4. Além do Tente Entender o Que Tento Dizer: poesia + hiv/ aids, você ainda organizou o livro de memórias Ney Matogrosso - Vira-Lata de Raça (Tordesilhas, 2018), o Escolhas (Carpe Diem / Língua Geral, 2010), uma autobiografia intelectual de Heloisa Buarque de Holanda, e é curador das obras de Rodrigo Souza Leão e Adalgisa Nery. A pesquisa profunda, a aproximação intensa, e o envolvimento com o trabalho alheio também são, de alguma maneira, formas de amar as pessoas?

R: Acredito que sim, organizar o trabalho de outro é um ato de amor. Amor à literatura, à arte, produzida por essas pessoas que pesquiso. Para dedicar-se ao outro, ao trabalho intelectual e artístico de outra pessoa, é fundamental ter amor. Se não for assim, fica difícil de continuar.

5. A literatura mundial, de todos os tempos, é prolífera em narrativas amorosas. Para terminar nossa entrevista, qual o amor que te interessa em literatura?

R: Vou respondê-lo com um poema, publicado no meu último livro de poemas Há um mar no fundo de cada sonho:

FLOR SANGRENTA

o amor
talismã vulnerável
desespero alegre dos amantes
busca eterna do que é
perecível


Ramon Nunes Mello (Brasil, 1984) é poeta, escritor e ativista dos direitos humanos. Autor dos livros "Vinis mofados" (Língua Geral, 2009), "Poemas tirados de notícias de jornal" (Móbile, 2010/2011), "Há um mar no fundo de cada sonho" (Verso Brasil, 2016) e "A menina que queria ser árvore" (Quase oito, 2018). Organizou "Tente entender o que tente dizer: poesia + hiv / aids" (2018) e "Ney Matogrosso, Vira-Lata de Raça - memórias" (2018). Poeta convidado do Rio Occupation London no Battersea Arts Centre (Londres, 2012) e da Festa Literária Internacional de Paraty (2016).

foto: Ricardo Fujii

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