Com um pé atrás
Camila Assad

Ao contrário do estereótipo feminino, eu não tenho muitos pares de sapatos. E os que tenho duram muitos anos, visto que meu pé não cresce mais desde que eu tinha doze anos. Preciso apenas trocar os Asics pretos para corrida a cada dois anos pois eles acabam se desgastando, não porque eu seja uma exímia atleta que os faça ralar as solas emborrachadas no asfalto duro por longas horas semanais, mas porque as coisas não duram muito hoje em dia. Afeto mesmo tenho apenas por uma galocha verde de plástico, de cano médio e concepção estética duvidosa, mas de um conforto absurdo para quem pisa torto e com o bônus de ter sido adquirida com setenta por cento de desconto no saldão final de uma loja em Belo Horizonte.

Sou daquelas pessoas que mal entra em casa e já deixa os sapatos na porta. No Oriente essa é uma prática bem comum, eles acreditam que os calçados trazem as más energias e as possíveis contaminações da rua e, portanto, não devem conjugar com as nossas atividades domésticas. Superstições à parte, a questão higiênica adquiriu uma importância inédita nessas semanas esquisitas. Percebo que todos os meus vizinhos deixam seus sapatos sobre os capachos no hall e sinto que o time dos descalços ganhou forte reforço.

                                                                                                                                                                                                            arte:camila kohn

Quarenta dias dentro de casa significam quarenta dias de pés pelados, então senti uma saudade esquisita de vestir minhas queridas botas. Tenho enfrentado uma série de saudades esquisitas e numa lista que inclui cantar num karaokê na Liberdade e descer a ladeira Porto Geral, calçar sapatos me pareceu a mais sensata e tangível das vontades. Me permito então colocar os pisantes sobre as meias pretas de algodão (depois de esterilizar tudo muito bem, de acordo com as exigências dos novos tempos). Como é estranho para mim usar sapatos sobre o sinteco de madeira do apartamento. Mas sinto falta de usá-los, sinto falta de usar qualquer calçado que seja, e na situação em que estamos eu barganharia uma possível estabilidade da vida humana no planeta Terra em troca de passar o resto da minha existência presa a um temível salto agulha de 15 centímetros com bico fino.  


Aproveito o pouquinho de ânimo que ganho com os pés devidamente amparados para organizar a casa que deixei em suspensão. Preciso encontrar um destino para esses cômodos, e isso me machuca. Nunca é fácil decidir o que fazer com as sobras, sobretudo quando são tão concretas e significativas como uma residência. Me esquivei dessa decisão por muito tempo e não posso mais esperar, há um grito de urgência que se torna mais alto a cada dia que risco no calendário de propaganda da farmácia local colado na minha geladeira, é o desespero da incerteza, do tempo inexperimentado.

O destino dos lugares revela sempre o destino dos homens. A história da arquitetura é a história do mundo, com suas pirâmides, suas acrópoles, seus coliseus, suas catedrais e assim por diante. O indivíduo se esfacela, mas a história coletiva pode ser recontada através das pedras e tijolos empilhados milênios após milênios. A famosa democracia grega se espacializa em seus espaços abertos e de fácil acesso chamados de ágoras, o império romano exemplifica sua política do pão e circo nos seus teatros e arenas, a Idade Média nos legou suntuosas e hiperbólicas catedrais e agora, como cortesia da era do capital, ofereceremos aos que virão absurdos arranha céus que pertencem às grandes corporações e empresas privadas.

Como urbanista que luta com todas suas espadas imaginárias contra os espaços subutilizados, me sinto herege nos últimos 40 dias em que acordei aqui dentro dessa casa. Como militante entusiasta das ocupações populares, me sinto hipócrita mantendo por dois anos um local quase sempre vazio. Em todo caso, me pareceu útil e quase acolhedor ter um refúgio longe do caos paulistano nesse momento de desordem.

Para finalizar meu traje apocalíptico adiciono minha máscara cirúrgica descartável e começo a escavar o que me resta e o que ainda me pertence aqui. Construo a figura de um escafandrista pós-moderno separando toneladas de papéis Chamex e casacos de tricot da Zara enquanto o mundo cai ao meu redor. Descarto caixinhas com tintas ressecadas, dezenas de produtos de higiene pessoal vencidos, minha coleção de cartões postais, folhetos de exposições de arte e guias de visitação de museus.

Carente dos meus apetrechos básicos de culinária, preciso pedir comida por aplicativo. Digo com voz melódica para o entregador que vai ficar tudo bem. Ele me olha como se eu fosse louca. Quem nunca pegou comida de pijama puído de ursinho, galocha verde e máscaras que atire a primeira pizza. Dou uma nota de vinte reais e seu sorriso foi das coisas mais genuínas que vi nesses dias. Mas não consigo comer, além de possíveis vírus, tem muita culpa nesse prato.

Para se desapegar de uma casa é preciso destituir o potencial afetivo que ela oferece e esquecer tudo o que aprendi nas aulas de semiótica. Os objetos precisam ser apenas signos, jamais símbolos. É um processo bastante doloroso pra pessoas sensíveis. Vou suportando por quase um mês até que uma hora toda sensibilidade que tenho vira raiva, afinal, do que me vale todos os acúmulos agora que flertamos com o fim?

Estamos em sintonia na queda: eu, a casa, o mundo. Micro e macrocosmo alinhados, exaustos em resistir, em oferecer algo além dos seus limites físicos e emocionais, provavelmente em estado de estafa, com pouca gana em aguentar o tranco e enxergar novas perspectivas. Diante do cenário, as prioridades vão se alternando. Não me interessa mais ganhar um prêmio por construir um excelente edifício com boa ventilação cruzada ou conhecer a Mongólia levando só uma mochila nas costas. Quero apenas calçar as minhas galochas e me perder por aí. Zanzar, bem cronópita, pelas ruas conhecidas. Quero descer as ladeiras de Perdizes xingando seus ângulos de inclinação, caminhar pela Doutor Arnaldo sentindo cheiro de flor e de morte até vislumbrar a Paulista, de lá pegar a Consolação e ir até o centro cantarolando o último CD do Jards Macalé para ver o sol nascer na praça Roosevelt.

Na Folha de São Paulo vejo um ensaio fotográfico com dezenas de sapatos deixados do lado de fora das residências. Os sapatos descansam silentes, aguardando o momento de voltarem à vida de outrora. No mesmo dia leio um texto do Victor Heringer sobre os sapatos do seu pai com metáforas entre a poesia e sapatos vazios num deserto. A sobreposição dos silêncios, a solidão mais profunda que se possa imaginar, pois um sapato, assim como uma casa, só tem sentido com a presença humana.

Vivemos agora o dadaísmo aplicado à práxis: igrejas fazem delivery de hóstia, escolas oferecem aulas online para bebês de dois anos, limpamos com álcool a casca da banana antes de ingerir a fruta, artistas fazem shows para quatro milhões de pessoas via internet e a Globo reprisa a vitória da seleção de quase vinte anos atrás, indicando que os tempos áureos já se foram.

Os otimistas dizem que o lado bom é que parece haver um renascimento da solidariedade, uma possível ressignificação das importâncias afetivas. Talvez seja ingenuidade pensar nesse cenário de Ursinhos Carinhosos vomitando corações pelos quatro cantos do planeta, então me mantenho cética. Por sorte, tenho bons amigos. Nos acolhemos em grupos de WhatsApp, longos áudios de preocupação, leituras de poemas, trocas de memes e figurinhas, jogos online e demais distrações.

Estamos levando a sério a metáfora das trincheiras, prometemos abraços e festas em breve e juramos amor e parceria eterna. Mas precisaremos nos conhecer novamente daqui alguns meses. O que terá sobrado de nós? Será uma ilusão essa ideia de que nos tornaremos pessoas melhores? Creio que estaremos mais inchados, com certa deficiência de vitamina D, olheiras profundas, mais pobres e mais tristes.

Num impulso de criatividade e desespero peço aos amigos e familiares com quem mais convivo nesse apocalipse uma foto de seus sapatos. Aqueles que ficaram no deserto dos saguões de elevador, no limbo do guarda roupa, no cantinho da sala. Aqueles que eles usam quando precisam ir ao mercado ou à farmácia, ou aqueles que eles usam para trabalhar, no caso dos que precisam sair diariamente. Reúno no celular uma iconografia triste de All Star surrados e Havaianas estampadas esperando que a vida volte ao normal. Sapatos que assim como as minhas botas verdes, aguardam a suspensão dos dias confinados e o retorno da normalidade. Calçados que urgem por respostas, que assim como a minha casa, rebaixada semanticamente da categoria de lar, aguardam o futuro.

Esses objetos me dão indícios da personalidade de quem os veste, assim como minha casa narra quem eu fui na última década. Preciso resistir ao encantamento da rotina, das noites insones e das minhas prateleiras vagas. Preciso dar conta do inabitado, da inércia, do abandono. Victor profeticamente finaliza seu ensaio com a frase "Aqui em São Paulo desértica, cheia de sapatos sem homens dentro". Não me resta muito a fazer a não ser sofrer uma dor inédita enquanto me frustro tentando rascunhar micro textos sobre os calçados das pessoas queridas.


Foto: Mariana Moretti

Camila Assad nasceu em Presidente Prudente (SP) em 1988. É autora de Cumulonimbus, Eu não consigo parar de morrer e Desterro, obra contemplada pelo ProAC/SP na categoria criação literária. Tem obras publicadas em mídias impressas e digitais em Portugal, México, EUA e Argentina. Atualmente mora em São Paulo, a 1,5 km da Ria Livraria