Veranicos
Lara Matos

A fauna dos amores mortos se tece em nossos corpos preparando seus desfechos.
Antes que o fim se precipite, dentro de nós algo sabe.
Começa com vislumbres de vaga-lumes caindo. Odores fortes de besouros no início de
noites mornas.
Todos os pássaros do céu num uníssono triste.
Nascem dele vidas comuns, outras vezes seres fantásticos, todos carregados de dor.
Mas qual vida não é imaginada quando se esvaem as forças no embalo de um luto
silente?

Foto: Emanuel Kretzmann

Formigas tocandiras nas veias, asas batendo nos pulmões e encurtando a respiração.
Suindaras cortando os céus com seus presságios. Colônias de mariposas
atravancando a glote, lesmas nos pés. A torrente de lágrimas inevitáveis.
Mas desse deserto de sal aos poucos outras coisas se criam. As águas salgadas
cultivam um aquário de conchas e maravilhas, até os peixinhos iridescentes.
Abrindo caminho. Ganhando terreno para a fauna dos amores nascentes que também
se tece em nossos corpos, essa de modos nada discretos.
As abelhas começam a surgir por toda parte, sem ferrão e com as patinhas pesando
com pólen colorido. Depois, os beija-flores, atraídos pela promessa dos doces.
Canários e maritacas com muito barulho. Então, gatos e cachorros. Dependendo dos
locais, preás, cervos e até capivaras podem ser vistos próximos de corações contentes.
Houve avistamento de onças-pintadas em casos de mais apaixonados.
Algumas vezes os amores morrem e a anunciação dos vaga-lumes inicia seu cortejo
fúnebre do ciclo descrito. Em outras ocasiões, a fauna parece migrar mas com
surpresa o viço se recupera, por estação, por temporada. Mas a morte e a vida dos
amores coexistem, se alternando ou lado a lado. Uma não vive sem a outra, e são
muito amigas. Os vaga-lumes emprestam um tanto de seu brilho para as asas dos
beija-flores. Os besouros alimentam o canto dos canários.
Nossos corpos, nossos cantos, as palavras, devem ser casa de ambos: se ouvirmos a
orquestra de zumbidos, trinados e miados, entenderemos que é esta a mensagem.


foto: acervo pessoal da autora

Lara Matos é piauiense e autora da página 'Caixa de Abelhas', no ar há 12 anos.

Neste ano, lançou seu primeiro livro: 'O Corpo dos Meus Sonhos e Outros Poemas'. Criou, produziu e editou as zines autorais 'Zênite' e 'Apiário' e o folheto colaborativo 'Baladeiras', por ocasião da Balada Literária de 2019. 

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