Camila Assad e a necessidade do caos
entrevista exclusiva com a poeta Camila Assad, por Ian Uviedo


Camila Assad nasceu em Presidente Prudente (SP) em 1988. É autora de Cumulonimbus, Eu não consigo parar de morrer e Desterro, obra contemplada pelo ProAC/SP na categoria criação literária. Tem obras publicadas em mídias impressas e digitais em Portugal, México, EUA e Argentina. Atualmente mora em São Paulo, a 1,5 km da Livraria Ria. 


P: Nos fale sobre a sua entrada na literatura, o que te levou a começar a escrever?

R: Escrever pra mim sempre foi natural, fui uma criança tímida e talvez meio chata que decorava Canção do Exílio e recitava para o meu avô, eu adorava as aulas de gramática e matava as aulas de educação física. O processo de alfabetização foi muito gostoso pra mim, lembro que gostava de sentir a sonoridade das palavras, a junção silábica, aquela coisa do B + A = BA, C + A = CA. Depois a partir dos sete, oito anos comecei a fazer meus próprios sonetinhos, emulando o que eu lia. Claro que eram ridículos, mas me ajudaram a atravessar a pré adolescência, os amores platônicos, a sensação de ser um patinho feio no meio de belos cisnes nadadores. Sempre escrevi muito, tirei nota máxima na redação do Enem, adorava ler, mas na época do vestibular com toda aquela pressão hiperbólica por ter sucesso (o que no mundo contemporâneo quer dizer "ganhar muito dinheiro") acabei não cursando Letras ou Jornalismo. Com vinte anos eu me sentia completamente incompreendida e nessas horas a poesia surge como escape, mesmo que seja aquela poesia verborrágica e confessional. Hoje vejo que foi positivo ter tido uma década pouco linear, com muita errância e algumas temporadas de exílios voluntários, tudo isso me deu um repertório vasto que me ajuda bastante na criação literária, mas por outro lado senti que fiquei com lacunas no embasamento teórico daquilo que eu estava fazendo, e comecei a buscar cursos, oficinas, locais onde eu pudesse estabelecer trocas, receber críticas e orientações. Não tive um momento exato de dizer "eu quero ser escritora", mas tive o momento de querer estar entre os pares, de me pautar racionalmente e avaliar que escrever é algo que demanda muito tempo, muito estudo, certo investimento financeiro (afinal cultura no Brasil não é algo exatamente acessível) e sobretudo muito da minha sanidade. A escrita estabelece um lifestyle que exige bastante dedicação e comprometimento, hoje acredito que não dá pra ser escritor apenas aos sábados sob efeito de álcool, é um ofício desgastante, um processo de infinitos amadurecimentos.

P: Falamos muito em universo da literatura, universo criativo, universo cultural, qual está sendo o seu universo durante a quarentena?

R: São vários universos, às vezes bem divergentes, que se intercalam até mesmo num único dia (afinal a própria definição da passagem de tempo ficou ainda mais abstrata). Eu adoraria mentir que estou num universo racional de otimismo e positividade, que acordo cedo todos os dias, tomo suco verde, me exercito em casa, escrevo, cuido das tarefas domésticas, medito e durmo cedo. Mas eu estaria mentindo feio. Bom, alguns dias foram assim, com um pouquinho de sobriedade e clareza, sobretudo no começo quando eu não imaginava o quão longo isso seria. Agora que já avançamos os quarenta dias de isolamento confesso que tenho vivenciado universos bem sombrios. Nessa última semana tive crises de pânico dessas de me ver deitada na cama às três da manhã relendo Camus e atualizando os meus pensamentos sobre o sentido da vida. Eu não acredito que a obra literária da minha vida vai ser produzida nessa quarentena, eu sou sensível demais para conseguir ser minimamente racional em meio a esse caos, notícias de óbitos, de gente passando fome, um governo fascista, etecetera, e acho que o universo criativo exige uma dose de racionalidade que neste momento eu não consigo oferecer. Consigo fazer um desenho, pintar uma tela, escrever uma dúzia de frases despretensiosas no meu caderno, mas tudo bem fragmentado e esparso, porque a realidade está assim. Admiro bastante aqueles que se dizem artisticamente produtivos nesses dias (embora eu também desconfie desses). Talvez terei que inaugurar um jeito diferente de movimentar meu universo de fecundidades intelectuais em meio à pandemia, considerando que isso pode durar mais do que o previsto, afinal se a gente parar pra analisar a história, não teríamos a Guernica, os textos de Benjamin ou o jazz se os seus criadores estivessem tão fragilizados a ponto de paralisarem, mas pessoalmente ainda estou assimilando essa nova realidade, ainda é um universo desconhecido cheio de buracos negros.

P: O que tem te perturbado e o que tem te animado - se é que algo tem te animado - com o que está acontecendo no mundo e no país neste momento?

R: A política me desanima demais. Penso que em um momento de crise estar sob o comando de governantes minimamente coerentes faria muita diferença, mas o nosso cenário é muito negativo, tudo o que eu disser sobre isso será repetitivo e ainda assim insuficiente para descrever minha indignação. Eu vim passar a quarentena no interior e pra mim fica muito claro o quanto as pessoas repetem o discurso do presidente, minimizando o perigo real do vírus. O que me anima é ver meu filho começando a ler sozinho seus primeiros livros, vendo que ele cresce feliz, com saúde e aceitando esse cenário louco dentro da sua reduzida capacidade de compreensão. Eu fico insegura quanto à percepção que ele tem das coisas, afinal a possibilidade de uma doença fica num plano abstrato até que ela se torne realidade, mas nosso esforço é todo voltado para que permaneça no abstrato, claro. Com cada vez mais frequência ele me pergunta "quando o coronavírus vai acabar e poderemos voltar para São Paulo?", e eu respondo que sinceramente, pela primeira vez na vida materna, não sei dar uma resposta, e acho ele tem lidado bem com todas as incertezas que nos rodeiam. Eventualmente me sinto feliz ao ver um pôr do sol alaranjado, um passarinho que pousa a poucos metros de mim, uma música que eu não ouvia faz tempo, mas não quero romantizar a coisa e soar muito parnasiana. Os próprios refúgios e escapes na arte são reflexos do medo e da tristeza que estamos sentindo, certo? Leio um poema do Drummond, por exemplo, e imediatamente a palavra rua se ressignifica, mas numa perspectiva de análise mais fria, toda arte que estou consumindo tem servido para me consolar ou no máximo me distrair da realidade árdua. A própria fruição talvez esteja comprometida.

P: O que significava o silêncio para você antes da pandemia e o que significa agora?

R: Acho que eu vou precisar de uma maior distância temporal para conseguir elaborar essa questão, mas por enquanto penso que se antes o silêncio significava possibilidades, agora ele indica proibição. A imagem de uma avenida deserta em São Paulo é bem triste, o mesmo vale pro Papa rezando sozinho no meio do Vaticano, mas esses silêncios me dão a ideia de segurança e de consciência coletiva. Por outro lado, quando eu ainda estava na capital o barulho dos panelaços diários às 20:00 horas era a nossa forma de compartilhar a indignação. Os gritos e a música compartilhada entre os vizinhos têm sido uma nova forma de estabelecer vínculos durante o confinamento. Se alguém colocasse Caetano pra tocar na varanda no volume máximo antes da pandemia, provavelmente sofreria punições do condomínio, e hoje essa pessoa é vista como alguém que está disposta a alegrar os outros num momento difícil. Aqui em Presidente Prudente as janelas permanecem silentes mesmo nos momentos de pronunciamentos políticos completamente nonsense, então eu interpreto esse silêncio como um consentimento, preferia que houvesse muita algazarra. Logo eu não consigo não pensar naquela frase meio clichê do Luther King: "no final não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos".

P: O seu livro mais recente, o Desterro (Edições Macondo), propõe uma discussão sobre a relação entre o corpo, principalmente o corpo da mulher, e o espaço que este corpo habita, que no caso do seu livro é a tal "cidade grande", a cidade de São Paulo. Seus contrapontos pertinentes à figura do flâneur nos fazem ter vontade de perguntar: Qual a influência da rua, dos encontros urbanos, na sua produção literária/poética?

R: A influência é maior do que eu pensava que fosse. Escrevo muito quando estou no transporte público, estou sempre atenta às histórias alheias, circulo sempre com um caderninho e uma caneta e vou roubando diálogos e imagens, gosto de sentar em algum lugar onde haja muito movimento ao meu redor e ir sorvendo toda a agitação. Eu já desconfiava que não tinha vocação pra clausura, essa coisa de ser Emily Dickinson nunca esteve exatamente nos meus planos, mas agora tive a confirmação absoluta disso. Por mais que eu me excite com um pôr do sol ou com um passarinho, como eu disse na pergunta 3, eu não consigo escrever sobre eles, a natureza não está presente nos meus textos, quando eu li Walden achei aquilo um tédio (talvez exatamente por ter nascido em um lugar pacato), e por ora eu não tenho nenhuma intenção de independência pessoal. Eu preciso do caos para escrever, eu adoro as possibilidades infinitas de narrativas e personagens que as cidades grandes me oferecem, preciso do parque, do bar, do metrô, do museu, do cinema, da feira pra me sentir ativa e potencialmente criadora.