Subtração
Nadia Barros

"você é louca, reclama de tudo"
"cadê aquela menina doce?"
"minha mãe nunca gostou de você"
"eu não sou racista, admiro muito você"

domingos
aprendo suas manhãs demoradas
sozinha
escuto sabiás e, às vezes
um beija flor me visita
escrevo
sorvo o que há de bom
acompanhada de lírios
de um amor que acaba

"me devolve as coisas que eu te dei"
"eu não sinto mais nada"
"você pra mim não existe mais"

o chá esfria na minha boca e
ao fechar os olhos
quase sinto a constância simples do seu café
ainda vivo o atemporal diáfano
o pensamento mágico
da Joan Didion que você me deu
minha força frágil
de tanta pressa e excesso
ignora suas fronteiras

"seja escrota comigo e você vai ver o que te acontece"
"você vai pagar"
"sua buceta é minha sim"
"vou acabar com a sua vida"
"vou ficar no seu portão até você sair"
"você vai morrer sozinha"
"homem nenhum vai te querer"
"ninguém nunca vai te amar como eu"

arranco de vez
o esparadrapo da boca
já não há grito
que os lábios calem
do meu sexo
não saem crianças
nem entram mocinhos
de colônia barata
prestes a apertar o gatilho
roleta russa de suor e gozo
penso que te vi
e não atirei.

Foto: Jorge Filholini


foto: Gabriel Dias

Nadia Barros publica um poema seu pela primeira vez. Formada em Ciências Sociais e Direito pela USP, é Mestre em Humanidades pela mesma Universidade. Colabora em projetos de cultura e direitos humanos no Brasil e em Portugal. Antes da quarentena, caminhava pelas ladeiras de Perdizes até a Merça. Agora não dispensa o PF entregue em casa.  

Jorge Ialanji Filholini é escritor, produtor cultural e fotógrafo. Publicou os livros de contos "Somos mais limpos pela manhã" (Selo Demônio Negro, 2016), finalista do Prêmio Jabuti, e "Somente nos cinemas" (Ateliê Editorial, 2019).  

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