Quadro sem título para outubro de 2018
Patrícia Galelli

um soco, mas é muito simples:
o tipo que dá nos nervos, um pedaço de rancor
um pedaço de país
um pedaço de pau cheio
de pedaços de paus menores
acoplados no primeiro pedaço de pau
querem nos bater assim, acoplados entre si,

mas nós não queremos doer

porque a coisa toda transparece:
do céu é um bicho do absurdo,
um bicho feio do absurdo
uma coisa grudenta quase verde quase delirante uma coisa enjoada amarela uma vacina de mercúrio - e se foi pela vacina da gripe que as pessoas foram contaminadas pra não sobrar saúde? se foi então que o vírus sofreu mutação, ficou mais forte, perdeu a vergonha e agora aparece em todo mundo com cara de pau?

morre todo mundo todo mundo vai morrer
a televisão avisa que a gente vai morrer
mas a gente morre desde que nasce
só que a televisão avisa que a gente vai morrer ensanguentado amassado estropiado estuprado batido despedaçado com o cu comido na prisão contra a parede doendo muito transformando os intestinos em saco de porra e os amigos que também vão morrer esfaqueados empalados estropiados fodidos todos nós que queremos a alegria e cantamos e fazemos caixas de pedaços de paus forradas de isopor e colocamos gelo e todo mundo traz um pouco de cerveja

a televisão avisa pra gente não ter medo porque a polícia pega o exército prende o presidente faz a justiça e todo mundo que for do bem não morre - só quem for do mal alguém que não ame certo que não pense na verdade da verdade da verdade que o presidente disse que há para acreditar uma verdade que ele não disse muito bem qual é.

um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro um tiro

a televisão avisa que o whatsapp avisa
quem avisa amigo é
a polícia sobe a favela e mata e resolve o problema
e o vizinho do bem
mata índio
mata o moço que dormia na marquise
mata mulher que diz não
mata menina que ama menina
menino que ama menino
mata artista que aperta o dedo na ferida
mata assim, dizendo sim, morre quem for alegre

isso de qualquer um matar vai acabar estragando essa coisa da gente morrer no tempo tranquilo, da gente morrer de boas, lendo e tomando chá, ouvindo uma musiquinha.
porque preferem ajudar a gente a morrer mais rápido porque
a televisão avisa que todo mundo pode a qualquer tempo morrer mais rápido
logo depois que se sai de casa,
é triste pensar que a pessoa morre de tiro,
logo depois que se sai de casa, se morre todo dia,
num dia em que se atravessa a rua,
se coloca um guarda-chuva pra quando o tempo escurece de vez,
um protetor de pele que mata algas marinhas pra quando o tempo queima de vez,
e se pode morrer muito lentamente prendendo o pé no bueiro na valeta
sendo atropelado por um carro -
um carro bem grande, bem bonito, bem polido, com pneu novo,
importado dos estados unidos,
o pneu lustro,
o pneu lambido,
o pneu brilhoso,
o pneu.

acho que empobrece muito a vida quando se tenta atravessar a rua e se vê logo alguém com o pé preso na valeta e no asfalto a marca do bicho atropelado pincelada na estrada - coladas as tripas entre os enrugamentos do asfalto, vários carros passam e passam por cima porque nem se nota que o bicho é uma pessoa -

eu sinto muito
que nem consigo atravessar na faixa
e cometo o crime de passar pelo canteiro
porque é proibido pisar na grama
mas não é mais proibido dar um tiro um tiro um tiro um tiro
eu atravesso o canteiro
pra não chegar perto do bicho da pessoa morta atropelada pelo merecedor de um carro de pneu de brilhantes rosa turquesa esmeralda pedra fina que protege a elegância e se distende feito um fio de ouro na sobremesa delicatéssen vida linda muito top coisa divina deus é amor e a família


*Este texto faz parte da publicação "Escovar a história a contrapelo", disponível para baixar em: https://www.culturaebarbarie.com.br/para-baixar-gratis 


foto da autora: Ayrton Cruz

foto do texto: Ian Uviedo

Patrícia Galelli (1988) é escritora e artista. Assina a coluna Vértebra da mão, na Revista Gulliver. Tem formação em jornalismo e é mestre em Processos Artísticos Contemporâneos (Universidade do Estado de SC - Udesc). Publicou os livros Carne falsa (Editora da Casa, 2013), Cabeça de José (Editora Nave, 2014), Prêmio Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura (2013); o conto Gávea (selo Formas Breves/e-galáxia, 2014) e a publicação de artista Um bicho que (Miríade Edições, 2015/16). Publica ainda em 2020 os livros para crianças Gato-átomo, também premiado pelo Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura (2019), e Oficina de pai pelo selo Nave-nina, da Editora Nave