Aqui se faz...

Edyr Augusto

arte: Camila Kohn

Porra, Naty, dá uma forra ao menos, pequena! Tudo sou eu nesta porra desta sala, caralho! Ao menos ferve esses instrumentos! Alô, meninas! O que temos para hoje? Mais um porrilhão desses pobres do SUS! O que não se faz por uma graninha! O senhor nem sabe o que vem por aí. Olha só! Na maca, vem entrando Zazá. Dr. Amando riu. Se curvou rindo. Porra, Luciene, vai te foder! Puta que o pariu! Era só o que me faltava! Uma anã, caralho! Uma anã! Será que vão me pagar meia operação também? Quando eu conto lá fora ninguém acredita! E, olha, (sussurrando) me disseram que é puta profissional... Amando curvou-se de rir! E tem quem queira pagar pra comer isso aí? Que mundo imundo, meu Deus! É preciso ser muito cristão! Sorte que vou à missa aos domingos e peço perdão... Quanto de dilatação? Ih, é pouco. Deixa eu ver. Sai rindo e escondendo a boca. Uma buceta de anã... Naty, tu já tinhas visto uma dessas? Virgem Maria, Luciene, para com isso! Tu já pensaste na hora de meter, como é? Será que o macho dela também é anão? Tu vais ficar é besta quando vires o pai. Égua do moleque bonito, viste! Ah, duvido-dó. Estás pensando que anã não tem seus truques? Zazá deu um berro na contração. Respira, mana, sopra, vai, sopra. Agora, com força. No três. Um, dois, três! Nada, dr. Amando. Vou passar a faca. Prepara a cirurgia. Todo mundo aqui vai ganhar mais. Quando o bebê saiu, levou a palmada, chorou e as enfermeiras foram examinar pra saber se era anão. Vocês são burras, nanismo nem sempre é hereditário, vão estudar, suas porras, nem que seja no Google, porra. Fecha aí, Luciene, que eu já tenho outro pra fazer. Essa nunca vou esquecer. Uma anã parindo na minha mão!

Ela lutando para parir e eles contando piadas com anões. Parto difícil, mas foi a raiva, a revolta contra o mundo que deram forças a Zazá para parir. Quando puseram a menina em seu colo para mamar, ela tocava o corpinho, para saber se era toda normal. Mas outra parte do coração jurava se vingar de seus algozes, prestando atenção nos rostos e nos nomes.

De volta à enfermaria, virou curiosidade. Todos iam lá para ver a anã que pariu. Ganhou até alguns mimos. Das enfermeiras que a sacanearam, somente Luana voltou para os curativos. Quando Gio foi visitar, hum, vieram todas as filhas da puta. Não vou esquecer nem uma delas. Também logo a dispensaram. Outra paciente precisava do leito. Gio nunca saberia que não era sua filha. O pai biológico era um cliente antigo, pagava bem, cash. Dava presentes. Foi um acidente. A camisinha estourou. Na hora, não deu bola. Enfrentou Gio e acharam de ter o bebê. Traição? Não, um acidente de trabalho...

Zazá mentalmente fazia sua lista: Amando Albanas, médico parteiro, Natasha de Paula, enfermeira, Luana Monteiro outra enfermeira, Luciene Ribeiro, essa era a pior, enfermeira instrumentista. Nunca vou esquecer. Anderson, Natasha, Luana, Luciene.

Gio chamou um táxi. Levava Adriana no colo, todo orgulhoso. Por que esse nome, Adriana? É alguma parente tua? Tua mãe? Tem uma atriz na tv. Record? Não, Globo. Vale a Pena Ver de Novo, de tarde. Adriana Esteves. Acho que sei, mas, poxa, Zá, ela faz uma mulher malvada... Eu sei. Sei muito bem. E então? Isso é comigo, Gil, tá?

Deixou a neném na casa de Etelvina, a vizinha. Só meia horinha, tá? Gio agora trabalhava à noite. Pegou o táxi e desceu próximo ao hospital. Lá vem ela. Com o namorado, a puta. Subiu na moto. Calça apertada. Isso lá é roupa de enfermeira que se preze! Voltou no dia seguinte. Escolheu Luciene. Uma por uma. Seguiu a moto. Desceu numa passagem do Curuçambá. Um barraco. Ela e o bofe. Já sei. Iam foder, com certeza. Vão é queimar no inferno, caralho. Noite seguinte. Mais cedo. Curuçambá. Desceu antes. Andou até o barraco. Ninguém à vista. Deixou mocozados dois litros de gasolina. Entrou na mata e esperou. Até cochilou. O neném trocava o dia pela noite e ainda tinha a boate. Ainda bem que Gio olhava de dia, embora dormisse também. Iam levando. Adriana era a luz da vida deles. Barulho de moto. Chegaram. Entraram. Zazá atenta. Tomaram banho. Transaram. Filha da puta. Imagina o tanto de mal que essa porra já fez hoje com as pessoas pobres! Cheiro de comida. O estômago de Zazá revirava. Estava na hora de dar de mamar. Mas hoje espera. Tem televisão. Novela. Urinou ali mesmo no mato. Silêncio. Somente as almas da floresta. Sorte não terem um vira-lata barulhento. Derramou o líquido nos cantos do barraco de madeira já muito gasta e seca. Acendeu. Pegou rápido. Correu para o mato. Precisava ver. Demoraram a acordar. Ela saiu, pegando fogo, se jogando no chão, se esfregando pra ver se as chamas apagavam. Ele nem saiu. Pronto. O povo correu para ajudar mas era tarde. Se vivesse, essa tal de Luciene estava acabada. Está pagando pela língua. Essa foi por todas as moças pobres! Zazá pegou o táxi e correu para casa. Já passara da hora de Adriana mamar.

Vem cá com mamãe, vem!


foto: Zê Charone

Edyr Augusto é paraense, jornalista e escritor. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes, pela Boitempo Editorial, quatro deles lançados na Inglaterra e França. Seu livro mais recente é "BelHell", lançado na Mercearia São Pedro, na Vila Madalena, no mesmo dia da inauguração da Ria Livraria.


Camila Kohn é artista intermídia. Graduada em Artes Visuais pela Unesp, vive e trabalha em São Paulo. Entre pintura, colagem e instalação, tem como principal suporte o arranjo de objetos, criados e encontrados. Em 2018 apresentou a série de pinturas em grande formato Infiltrações e esteve na residência artística do grupo de pesquisa L.O.T.E. na Fundação Marcos Amaro (Itu, SP). Em 2019 e 2020 fez duas montagens de Três Relatos, a instalação itinerante em constante construção.