Fausto Fawcett, a crise, o caos e a catástrofe
entrevista exclusiva com o escritor, dramaturgo e compositor Fausto Fawcett, por Ian Uviedo

1 - Fausto, a sua obra, fortemente influenciada pela ficção científica, sempre apontou para o colapso iminente das grandes megalópoles. A Copacabana que você registra, sortida de seres excêntricos que conciliam, numa gambiarra dialética, terceiro-mundismo e tecnologia de ponta, militarismo e tropicalismo, entre outras contradições que são, afinal, nossa identidade, parece o retrato de uma cidade que você conhece como ninguém, um retrato contaminado pela sua verdade poética.

Nesse cenário de pandemia e isolamento social, as ruas ainda te fazem falta como matéria-prima criativa? Ou na sua galeria mental já há personagens, cenários e situações mais do que suficientes para atravessar a quarentena?

R - Ficção científica, pra mim, é a literatura que provoca de maneira mais ampla o tal estranhamento moral, visionário, sensorial e linguístico que a boa literatura - ficção ou ensaio ou seja lá o que for - é obrigada a incutir no leitor dissolvendo toda a familiaridade das repetições cotidianas que geram confortos de segurança e controle e despertando aquele pesadelo filosófico oculto nas mentes e que está sempre à espreita como uma bactéria oportunista. Envolvido por esse estranhamento, você lida com dimensões de tempo superpostas, com especulações sobre a matéria orgânica e inorgânica se entrelaçando, tudo isso revelando (atenção religiosa para a palavra revelando) o caráter alucinatório, delirante, absurdo das nossas vivências, a insuficiência dos nossos sentidos, das nossas tentativas de dar sentido à vida. A linguagem e a memória entendidas como criaturas rapinantes, predadoras, invasoras. Criaturas de maquinação da hybris eterna que atormenta o ser humano, a vontade de transcender, de querer ser mais do que é, do que pode. A autoconsciência é uma aberração da natureza que perverte a função genética primordial de nascimento, reprodução e morte. Somos guiados por esse combo de memória, linguagem e básicos instintos (seres míticos segundo Freud, bela definição para tudo aquilo que já vem no nascimento; afirmações de tendência comportamental temperamental) que acompanhados por inconsciências suculentas desembocam em sentimentos, emoções, desejos, vontades etc. Cutucando a vigília, a lucidez, a sanidade que funcionam como diques heroicos segurando forças de afirmação genética e todas as inconsciências e etcéteras enigmáticos da mente. As literaturas lidam com as brechas nesses diques. Vão no ponto cego da consciência que não é uma constante e sim uma variável. Na atualidade, mais do que nunca, o ser humano é encarado como território experimental, as cidades como territórios experimentais. Eugenias e mutações sorrateiras em andamento. Catástrofes de consumo. O usuário, o cliente, o assinante, o cadastrado, o consumidor é o personagem principal enredado no sadomasoquismo das interações e aplicatisses. O Black Mirror do Black Mirror do Black Mirror. A ficção científica agora envereda pelo terror do consumo absoluto de gadgets influenciando nossas noções de ego e consciência. É como se tivéssemos num liquidificador de consumações, saturações e perturbações. Kafka, Poe, Lovecraft, Augusto dos Anjos, Borges, James Joyce, Proust, H. G. Wells, Philip K. Dick e William Burroughs principalmente, turbinados provocando a mutação definitiva do sapiens para o zapiens, mutante infinito trocando de mente a cada duas horas num mundo que funciona a base de Iminências e simulações. A Globalização é encarada por muitos como um fenômeno extremo, uma Fera Fundamentalista das Acelerações de todos os aspectos da vida provocando frequentes suspensões, apagões, catástrofes, intervalos, bugs e colapsos pra depois retomar o processo-progresso de desenvolvimento ininterrupto. Mais do que nunca somos ensaios mamíferos rumo a não se sabe o quê. Sísifos cheios de anfetamina querendo empurrar não uma mas duas, três pedras ladeira acima transformada numa escada rolante na velocidade máxima. A Iminência é a musa das manchas urbanas globalizadas. Alguma coisa muito terrível e fascinante e grandiosa vai acontecer. Desejamos isso ardentemente para nos tirar da modorra, da inércia de todas as atividades produtivas. Paradoxo. Muita produção gera inércia aguda. Muita civilização gera fundamentalismos, pouca civilização gera muito mais. Efeito colateral provocado pela Fera das Acelerações: transtornos de personalidade apocalíptica. Medo, raiva, tristeza e, principalmente, desamparo na ordem do dia há vinte anos pelo menos. Fico ligado nessa conjunção de globalização e ficção científica trash a partir de Copacabana que continua sendo um bairro heterodoxo, a capital do purgatório da beleza e do caos num país periférico. Periférico como os cabos que dão mau contato, o Brasil é um país que dá mau contato no contrato social. Ilhas de excelência cercadas por forças do atraso, um abismo que nunca chega onde a queda e a ascensão nunca se confirmam, deixando os ambientes mentais em vertigem eterna. Há vinte anos bugs econômicos, digitais, sociais, ambientais, biológicos, terroristas e políticos acontecem, mas nenhum parou o planeta civilizado. Parou a Fera Aceleradora. Agora aconteceu e o medo, a raiva, a tristeza, o desamparo (e todas as reações a isso, claro) que levaram multidões pras ruas reclamando contra tudo e contra todos anos atrás, agora estão no modo avião. O que era ativismo virou eremitismo. Mas os transtornos apocalípticos continuam. Quanto às ruas, confesso que já não preciso da bagaceira boemia (mas sempre que posso paro diante de um balcão e olho os paredões de garrafas; fico olhando e meio que rezando para aquele oratório de cães engarrafados, não os melhores amigos do homem mas os mais perigosos detonadores de demônios; prazer imenso) mesmo porque não são mais os losers boêmios, marginais explícitos ou vagabundos andarilhos urbanos acionistas do grande abandono universal que me interessam (já rolou) e sim o seal, o mercenário à deriva, os cobaias, os psicóticos de seita, as seitas, os fundamentalistas de vários naipes... A pandemia não impediu nada, só aguçou, pois as ruas da minha mente estão bem povoadas e cheias de bueiros e encruzilhadas inóspitas, avenidas de aceleração lisérgica... Tudo no mais perfeito pânico (risos).

2 - Na primeira edição do seu Santa Clara Poltergeist (1990), o antropólogo Hermano Vianna aponta para sua fixação pela "utilização da ciência como fenômeno pop" e por "invasores de corpos, biológicos, tecnológicos ou espirituais", e não é de hoje que podemos relacionar sua obra com a do norte-americano William S. Burroughs, a começar pela Interzone, até chegar na ideia da linguagem como um vírus - todos conceitos que parecem exaltados ao ponto máximo nos dias de hoje. Com esse background, a situação atual te surpreende? Ou o que estamos vivendo é justamente sobre o que você sempre escreveu?

R - Pois é, como eu coloquei na resposta anterior, já temos dois invasores de corpos, a memória e a linguagem que, com os seres míticos, os básicos instintos surgidos no paleolítico, forjam o Cérbero que comanda a mente, essa Interzona cerebral que habita nosso bunker craniano. Daí que o que sai de dentro da gente é sempre nó de encruzilhada cheio de ambiguidade, paradoxo, contradição e, principalmente, como eu também disse, transcendência. Somos interzonas e eu sou totalmente fascinado por lugares de fronteira, varejões de entreposto generalizado, núcleos de negociação onde não existe Estado, lugares onde a promiscuidade de todas as negociações, experimentações científicas, feiras de sexo e tecnologia lado b, faunas humanas desconcertantes escancaram o sumo grotesco das relações totais. Mais difícil hoje em dia com o mapeamento digital de tudo. A interzona é cada vez mais mental, digital, virtual. Mas ainda rolam pontos fora do alcance das câmeras. A verdade é que vivemos num mundo de Crise, Caos, Catástrofes programadas e não programadas, inércia produtiva de consumação, saturação. Caos, Crise e Catástrofes estruturais. Esse o caráter barroco da globalização e do mundo atual. Os bugs vão rolar o tempo todo porque já fazem parte da paisagem social sejam eles ambientais, políticos, econômico-sociais, digitais, biológico-sanitários, terroristas... Assim como a Fera Fundamentalista das Acelerações. O mundo é interzona-extensão do que somos... Para fazer uma referência à minha interzona literária situada entre Rio e São Paulo, digo que somos Favelosts, queremos Favelost, precisamos de Favelost, sentimos e pensamos Favelost. Perdidos na precariedade. E cada palavra de espanto diante de todos esses bugs, colapsos, interrupções, hiatos e vácuos é apenas fragmento de uma reza gigantesca, gigantesca reza desencontrada da civilização suspensa e que não sabe se vai pousar de novo, onde vai pousar. Não me surpreendo pois vivo ligado em apocalipses portanto escrevo tendências fatídicas que realmente acabam batendo daí que... Assim como tomo cápsulas de Cioraneto todos os dias também masco Burroughs bubble gum o tempo todo.

3 - Não há um dia que não sentimos que a tal distopia, profetizada por tantas obras de ficção científica/ ficção fantástica, enfim se consumou. Fausto, como você vê o futuro da ficção científica na literatura brasileira e de outros países? Está muito difícil competir com a realidade?

R - Bom, volto às duas respostas anteriores pra sublinhar que utopia e distopia já são palavras caducas com andador semiótico, que futuro é um cadáver conceitual e já não tem lugar nobre na ficção científica e que realidade e ficção estarão sempre em empate técnico. Se vivemos em Caos, Crise e Catástrofes estruturais, utopias e distopias estão juntas numa entidade chamada disputopia já que decadências claustrofóbicas num lugar e anarquias revitalizadoras noutro, morte e ressuscitação de métodos e lugares e o que for ocorrem o tempo todo nas entranhas esotéricas da geopolítica cheia de consumo e consumação de que espécie de Illuminatis? 1984, Admirável Mundo Novo e Laranja Mecânica estão sorrateiros, fragmentados, espalhados por aí subordinados ao triunvirato Crise, Caos, Catástrofe e Rússia, China e USA, a santa trindade geopolítica dos cachorros grandes na briga pelo mundo, corroboram isso. É só olhar para as suas ações e tipos de domínio etc.

O futuro não existe mais na ficção científica como ponto de partida. Como eu disse o presente constante de consumações e alucinações é que constitui a principal pista da ficção de tecnologia psicótica cheia de terror alucinante. Ficção psicobélica.

Sempre impliquei com essa história de que a realidade ultrapassa a ficção etc. Ora bolas, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mas as duas se confundem, convergem etc. E é empate técnico por um simples motivo, somos ficcionistas de raiz, a realidade é refém simbólica da nossa linguagem, somos visionários pela máquina da memória adubada pelas sinestesias ambientais, somos mitômanos com força portanto existe a realidade própria da ficção gerada pelas imagens dela e que vai incutir outra camada de acontecimento mental no cérebro tanto quanto uma surpresa um trauma, algo palpável no dia a dia. Além do que, e=mc², ou seja, energia é matéria vezes a velocidade elevada ao quadrado, nossos corpos são vibrações concentradas, um pouco e você some... O que é e o que não é real? Não existe competição, só revezamento e superposição entre as duas. Como dizia William Blake: "tudo que existe, foi antes, algum dia, sonhado."

4 - Fausto, você já é uma figura quase mitológica em Copacabana, e, por extensão, no Rio de Janeiro, muitas vezes sendo considerado como um dos artistas que melhor o retrata. Como você acha que serão as transformações pós-pandêmicas no Rio? E como essas serão retratadas na literatura?

R - O Rio é uma cidade gothancitiada por todo tipo de milícias e comandos de comandos há muito tempo, mas agora... (é um resumo exploited do Brasil, nenhum estado tem moral pra falar do Rio pois todos tem rabo preso com os desmandos, defeitos e forças crônicas do atraso que comandam desde sempre essa terra; muitos disfarçam mas o Rio é exploited) e a pandemia não vai provocar muitas mudanças a curto prazo nem na cidade nem no país, mesmo porque são mudanças e reestruturações profundas que precisam ser feitas (uma vergonha em se tratando de trinta anos de redemocratização; PT, PSDB e PMDB saíram devendo e muito da sua hegemonia; agora é vácuo de desgoverno geral) pra eliminar tudo de parasitário, coronelista, capitanias hereditárias e etcéteras que continuam de forma escravóide mandando aqui. A curto prazo só aqueles eventos que aliviam alguma coisa mas não revertem o cenário de precariedade, desigualdade, tipo Plano Real ou algumas políticas sociais e as tais ilhas de excelência de sempre que andam sofrendo muito nesses tempos. A pandemia não vai mudar em nada o Rio ou o Brasil (ou o mundo a não ser no aspecto de reação paranóica a todo terrorismo e esse vírus foi o Bin Laden das epidemias portanto paranóia com segurança pode aumentar com monitoramentos corporais, orgânicos e clínicos feitos pelas próprias pessoas, hipocondríacos uni-vos) e muito menos melhorar as pessoas como os fofopatas da seita adoradores da música Imagine de John Lennon gostam de propagar.

Quanto à literatura a ser feita na cidade gothancitiada? Bem, ela (assim como o Brasil) é perfeita para as tais ficções de terror de consumo tecnológico, horror psicótico, hedonismo boçal, espiritismo radical, enfim uma literatura, uma ficção extremamente alucinada para uma época alucinada e alucinante fomentada por uma psicótica precariedade generalizada e que aguarda o surgimento de uma hiena-fênix, a hiena voadora que sairá das cinzas dando risadas enquanto mastiga a carcaça, os restos, as sobras da globalização e principalmente do que já foi uma civilização carioca, paulista, gaúcha, amazonense, mineira... Ficção científica trash cheia de vitalidade grotesca surgida de um país periférico que dá mau contato no contrato social . Ficção científica trash explorando o caráter alucinatório de uma nação zumbi (mundo idem).

5 - Para terminar, como estão suas produções? Há um tempo você anunciou o livro Cachorrada Doentia, que viria acompanhado do espetáculo homônimo com os Robôs Efêmeros (que de fato aconteceu), dizendo que era o momento ideal para a publicação. Isso foi em 2018. E agora?

R - Dois trabalhos estão na ordem do dia. Um com o músico, publicitário e designer Jarbas Agnelli mais o vj e programador audiovisual Jodele Larcher e que também contará com a participação mais que especial da Carolina Meinerz, que você conhece bem dos Trovadores do Miocárdio. Favelost O Disco é o nome do trabalho. Não é um registro em disco do que acontece no meu livro homônimo. Favelost aparece numa música como um lugar que acolhe todos os fodidos e desesperados que lutam pela sobrevivência de mais um dia. É o baile da última chance mas também um portal para algo que está contido no livro, ou seja, um lugar entre Rio e São Paulo completamente paralelo ao Brasil, uma super interzona, extravagante Serra Pelada, um super-gueto da tal globalização acelerada. São nove músicas, nove círculos com vinhetas entre as músicas funcionando como fio narrativo rumo ao baile Favelost. As nove músicas vão se fragmentar em pílulas nas plataformas digitais, em disco, claro, e em show e peça quando algum dia houver uma volta dos públicos aos espetáculos ao vivo.

O segundo é Cachorrada Doentia que agora ganhou um bônus pandêmico. É assim mesmo. Favelost levei uns quatro, cinco anos em adiamentos até que rolou e deu tudo certo.


Fausto Fawcett é escritor, dramaturgo e compositor. Nasceu no Rio de Janeiro em 57. Formado em jornalismo pela PUC do Rio.Gravou três discos: Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros (1987), Império dos Sentidos (1989 - Warner) e Básico Instinto (1993 - Sony), escreveu cinco peças Olhos ARdentes, Amizade de Rua, Ataliba a Gata Safira em parceria com Hamilton Vaz Pereira, Cidade Vampira com Henrique Tavares e adaptou Salomé de Oscar Wilde para o grupo Urubu de Curitiba, escreveu cinco livros: Santa Clara Poltergeist (1990), Básico Instinto (1992), Copacabana Lua Cheia (2000) Favelost (2012) e Pororoca Rave (2015). Atualmente prepara o próximo a ser lançado, chamado Cachorrada Doentia.

foto: Divulgação

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