Digestão
Clara Averbuck

Passei mal e vomitei. Assim mesmo; já vinha engolindo sapos e mais sapos, mas não foi isso que saiu. Senti mexendo na garganta primeiro os dedos, então um joelho e finalmente uma perna, seguida dos quadris, a parte mais difícil, e, finalmente, a cabeça. Seria mais fácil se saísse a cabeça primeiro, tal qual acontece com os bebês, mas não. Meu mal estar resolveu sair pelo pé, e, assim que se recompôs, tomou um banho, secou-se com minha toalha, que deixou toda enrugada no box, e não foi mais embora. A desgraça me acompanhava a cada passo, cada suspiro, cada refeição. Cada saída de casa, cada página lida ou escrita estava lá o homem nu, com umas pelanquinhas de teta e uma barriguinha de cinquentão, além de uma reluzente careca 100% e uma barba rala pra completar. Meu mal estar era pálido feito um morto e, curiosamente, não tinha órgão sexual algum, tipo o Ken, namorado ou cabeleireiro da barbie (nunca entendi a relação) ou o Falcon, que também não tinha nem pênis e nem vagina, apenas uma cuequinha de plástico, ou mesmo a Barbie. Ele também não tinha voz, mas consumia o ar de dez elefantes e tudo era mais difícil com ele por perto. Não sei como consegui viver com aquele homem dentro de mim, mas na minha cara, respirando meu ar, parecia pior.

arte: Camila Assad

Dias e dias se arrastaram com aquele homenzinho me seguindo em silêncio, sem me olhar na cara e sem dar sinal de que iria embora. Estávamos trancados em casa, no meio de uma pandemia, eu e aquele homem indigesto. Quando eu ia no mercado, ele se arrastava atrás. Banheiro, lá estava ele. Não dormia, apenas ficava em pé ao lado da cama. Falar era inútil, ele não ouvia. Se eu o arrastava para fora, assim que fechasse a porta ele já estava dentro de casa de novo, em silêncio, sempre em silêncio, sempre lá. Eu não me acostumava. Queria que ele fosse embora. Na internet não tinha nada sobre isso. Parece que nenhum mal estar tinha se materializado sendo parido pela boca, ou era constrangedor demais para que as pessoas admitissem. Será que todo mundo tinha um? Já sabia que só eu via o meu, mesmo que as pessoas na rua desviassem dele instintivamente. Era preciso que aquilo tivesse fim. Era domingo, chovia, e eu tive uma ideia. Peguei meu homenzinho pelas tetas flácidas e enfiei na Air Fryer. girei o botão e liguei. Logo o ar se encheu com o cheiro do assado. Joguei lá dentro azeite com uns galhos de alecrim, pimenta e sal e esperei. Em meia hora o timer soou. Arrumei a mesa com os pratos bons e os talheres pesados, despejei o assado numa travessa. Ele não tinha órgãos e sem ossos. Carne pura. Comi tudo. Tinha gosto de frango, bem suculento. Terminei, limpei a boca, cruzei os talheres, fiz um café, liguei a TV e esperei que a digestão fizesse sua parte e que eu finalmente me livrasse daquilo de vez. Uma hora depois, veio a vontade. Caguei bastante, satisfatoriamente, dei a descarga, abri o chuveiro e fui desfrutar da minha tão amada solidão.


foto: André Claret

Clara Averbuck é escritora e tem nove livros publicados. Já teve a obra adaptada para cinema e teatro e foi publicada em Portugal e na Inglaterra. Escreveu para inúmeros sites, revistas e jornais Brasil afora.


Camila Assad é caipira de Presidente Prudente (SP). Estudou Arquitetura e Urbanismo. Escreve, traduz, desenha e recorta porque acredita enfaticamente no "failbetter". É autora de Cumulonimbus, Eu não consigo parar de morrer e Desterro, obra contemplada pelo ProAC na categoria criação literária. Adora pesquisar e criar tudo que se relacione às cidades e sua dinâmica caótica. 

foto: acervo pessoal da artista