RevistaRia 2022

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não apenas um retrato dos nossos tempos, mas também um romance que chama a atenção para pensarmos o sujeito e o afeto 

LAURA REDFERN NAVARRO -  é poeta e quase-formada em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Toca a plataforma literária independente @matryoshkabooks, focada em literatura brasileira contemporânea.  

Pensar a formação social do país dentro da construção de subjetividades.

Estudo sobre o fim: Bangue-bangue à paulista, de Paula Fábrio.

Por: Laura Redfern Navarro


Publicado pela editora Reformatório, com apoio do ProAC, Estudo sobre o fim: Bangue- bangue à paulista é o quarto livro da escritora paulistana Paula Fábrio. Partindo de uma premissa aparentemente simples - um roubo de bicicletas num edifício de classe média da cidade de São Paulo, o romance propõe uma discussão complexa que traz a construção de subjetividades ancorada na formação social do Brasil, refletindo, ainda, sobre a tendência neofascista que começa a se popularizar no país a partir de 2016.

Já de início, percebe-se que as seções em Estudo sobre o fim: Bangue-bangue à paulista são nomeadas a partir de espaços, indicando o deslocamento dos personagens de um espaço a outro - quase sempre, entre as estações do metrô paulistano Vila Prudente e Vila Mariana.

Nesse sentido, podemos identificar o destaque à disparidade social e espacial na construção dessa narrativa, sendo a Vila Prudente marcada por uma vida difícil com pouca possibilidade de mobilidade social, pela "malandragem" e pela crescente presença das Igrejas Evangélicas e a Vila Mariana representada por pessoas consideradas "educadas", "bem apessoadas" e com maior qualidade de vida, quase como se um bairro fosse o negativo do outro: 

"Já o Magaiver não cultiva sonhos. Ele costuma dizer: 'na moral, eu quero casar e ter filhos, viver num sobradinho na Vila Mariana...' Aí um dos compade sempre o interrompe: 'Véi, na Vila Mariana não tem mais casa não...' Nessa hora o Magaiver masca uma bala de merda e grita: 'Cala a boca, retardado!'"

(p. 17)

No trecho, a desigualdade social é demarcada pela fantasia - o personagem Magaiver projeta um sobrado, mas esse tipo de moradia já não é proeminente na Vila Mariana, denunciando a disparidade das realidades entre os dois lugares, ainda que pertençam a um mesmo perímetro urbano.

Essa dualidade que se cria - rico e pobre; desejável e intragável; ideal e desgastante - vai ganhando força principalmente entre os personagens menos favorecidos da narrativa, esses que podem a vir ser sinalizados socialmente como "bandidos" - seja pela revolta contra a exclusão social, seja pela cor da pele, seja pelo bairro de origem.

É nesse contexto que se ganha o contorno do romance de Fábrio: planos e iniciativas moralmente duvidosas, estabelecidas por uma atmosfera de "nada a perder" que surgem da compreensão da coletividade de um sentimento de raiva e revolta que leva à necessidade de uma ação.

É interessante pensar como o adoecimento sistêmico - esse que se caracteriza pelo "nada a perder" - encontra combustível num profundo adoecimento psíquico, onde a necessidade de revolta e, mais do que isso, a necessidade de se justificar a revolta se tornam buscas incessantes nos indivíduos, facilitando a imposição de crenças irracionais. Na Vila Prudente, esse aspecto se evidencia pela expansão das Igrejas Evangélicas e de ideologias ultraconservadoras, próximas de um neofascismo.

O que se desemboca a partir disso? A humanidade desses personagens adoecidos e quase delirantes se vê em xeque. Mas, ainda assim, simpatizamos - ou, ainda, empatizamos - com eles. Entendemos o contexto que os violenta - e que, assim, os faz naturalizar a violência enquanto afetividade.

Assim, compreende-se Estudos sobre o fim não apenas como um retrato dos nossos tempos, mas também um romance que chama a atenção para pensarmos o sujeito e o afeto - mais precisamente, em como sua construção é indissociável de uma condição coletiva, seja ela histórica, socioeconômica ou material.

ALGUÉM LENDO EM SANTARÉM.

Água pra dentro de casa, aranha, cobra. Seis meses de pontes pra andar de um cômodo a outro. Costume. Igreja, mercado, tudo debaixo d´água. Seis meses de seca, plantação, verdura. Seis meses de água. Galinha no jirau. Carneiro engordando longe de casa. No alto. Comida à base de sal e milho. Seis meses de peixe na porta de casa. Criança morrendo de barriga d 'água; o homem das águas prefere a solidão e a paisagem líquida que o alimenta.

Comida é peixe, galinha, pato. Carneiro pra quem tem. Farinha quando é tempo da seca. Procura de árvores brancas, frutos maduros. Cata o cacho, escorrega pra baixo, cada cacho cinco litros de suco. Ferve água, joga fruto, amolece a casca. Macera. Mistura água, serve. Molha a massa no suco. Bebe um gole. Vai.

A febre e o pasto passam perto. As casas, o açaí, semeadura. Tudo no entorno fala a linguagem das águas. Elas sobem e descem com fartura. Não sei da questão mais que a rasura.

Suco de murici aguado na boca, caldo grosso. Pega no Mercado 2000 duas palmas de banana. O sol se põe e o barco avança.


Luiz Renato

MANAUS, VINTE E UM DE DEZEMBRO DE 2019.

Escrevo pra ti como se falasse ao pé do ouvido. Por que me fala sobre armadilhas se tem algum valor o que escrevo? Preciso compreender melhor. O que te enviei é fluxo contínuo pro qual entabulei um roteiro, mas sem me deter em fórmulas. Sou um caranguejo que teima em não andar pra trás. Morei no Guamá. Meu cotidiano em Porto Alegre era fútil demais. Morei no Bonfim, no Praia de Belas e em Petrópolis. Gostava das noitadas da Oswaldo, dos finais da tarde no brique, do Escaler. A ida pra São Paulo foi um choque. Como rato de livrarias pude adquirir pequeno acervo de preciosidades, você sabe, já falamos sobre isso. São Paulo me oferecia o que precisava naquele momento.

O aceno da estrada e a coragem da mudança foram estopins. Desci no aeroporto em uma tarde nublada. Ainda não conhecia a chuva das quatro. Gosto de morar na periferia; é onde se pode andar de peito aberto, mas com o pé no freio. Liguei meu celular com a playlist do Milton Nascimento e encarei Belém, em nome de Jesus. Quando botei o pé no chão, ouvia "Travessia", enquanto me deslocava de ônibus atentando pras placas, buscando um hotelzinho barato, pensão, ou coisa parecida. "Muito tenho pra falar".


Luiz Renato de Souza Pinto

Graduado em Letras-Literatura (UFMT), atua na docência desde 1998; Mestrado em História (UFMT) e o Doutorado em Letras (UNESP). Atualmente trabalha com Ensino Médio e Superior (Graduação e Pós-Graduação) no IFMT. Desenvolve oficinas de Escrita Criativa (em verso e prosa); Poesia e Filosofia; Letra e Imagem; Narrativas Curtas; Estruturas de Romance; Literatura e Outras Artes. Possui três romances publicados: "Matrinchã do Teles Pires" (1998), "Flor do Ingá" (2014) e "Xibio" (2018), "Cardápio Poético" (1993) e "Gênero, Número, Graal" (2017) livros de poemas. Autor também de "Duplo Sentido" (contos e crônicas) e as novelas "A filha da Outra" (2020) e "A gaveta, o lápis, o papel (2022). 

Numerosos campo


Quando, há exatas três horas e meia

Me atrasei, minha acompanhante

O próprio estatuto do nepotismo cromático,

tratava de acalmar a magnitude de minha

aparência enervada

Compilado de quatro anos do privilégio da

sobrevivência

fui esguia

no volante


E quando, no tratar da palha

testemunhada nas cinzas de Theodor Adorno

ou retirada pela sucção dos lábios

ela me arrebatava,

e também soluçava se meus contornos conformavam a nuvem negra do

tempo climático

Você é o testemunho problemático, dizia ela

aproximando a cartela coberta por um canto


Por conseguinte, ao me ver dirigindo

Tento não me consumar demais em minha

própria vigilância

Fundamento das mãos sobrevindo

atadas aos olhos estarrecidos

e furados


Refaço, assim, o ato de quem sobrevive a

própria impossibilidade de se resguardar


Lorraine Ramos Assis

escritora, resenhista e fotógrafa carioca


O rei do nada


o erro aplainado ao transformar o lugar de dois afetos

entendidos

por observadores nas diversas pistas de circulação

gera as bases de resistência de um território


território que não se percebe se não se alcança pulsos melindrados

membros de um sustento em suspensão nos

bancos revirados no engodo - insalubre

a observância do abdicar do anonimato

transformado em rostos graxa pelo tempo

recobre a insistência do critério de uma

relação, atento ao vertiginoso aroma


para sairmos do que ancora - e ao mesmo tempo mobiliza -

é necessário escutar os sons

tirar quem esteja da casa

e nos ensimesmar

parcial naufrágio em si por breves tempos

longe a quem nos colapsa

mas não sem endereçar a pulsão ao sair de uma cama empoeirada

24h por

dia


não desejo arrebentar-me por fétido júbilo

de seus cadernos de uma era dourada

há muito destruída

que agora destroem minha garganta

minha única arma



Escritora e fotógrafa, Lorraine Ramos Assis, 25 anos, foi publicada em diversas revistas, tais como Ruído Manifesto, Mallarmargens, Vício Velho e Aboio. É estudante de Sociologia, na UFF. Integrou a antologia Ruínas, da editora Patuá, e a antologia LiteraturaBr. Escreve desde poesias a prosas, sejam poéticas, resenhas literárias ou ensaios.  Colabora com o portal Faziapoesia e Revista Caliban. 

O TESTEMUNHO DAS FILHAS DE LÓ

Em nosso favor temos a dizer que

Jamais conseguiríamos obrigar nosso pai a tomar qualquer bebida


Que jamais poderíamos olhar para nosso pai nu, depois da maldição que sofreu Cam

Por ter visto a nudez de seu pai, Noé


Que ainda que quiséssemos fazer isso de que nos acusam

Temos a dizer que nosso pai é velho e como nos teria possuído, às duas, embriagado?


Temos a dizer que não queríamos sair de Zoar para habitar com nosso pai uma caverna

Em nosso favor, invocamos o exemplo de nossa mãe morta por simples desobediência


Expomos aqui que vivíamos em luto e que por temor a um deus que transforma

mulheres em sal

Obedeceríamos às ordens de nosso pai, e não o contrário


Temos a dizer que quando invasores bateram à nossa porta, ainda em Sodoma

Nosso pai disse a eles: tenho duas filhas virgens, façam com elas o que quiserem


Suplicamos que compreendam que a descendência de nosso pai

Nos era tão importante quanto o era para o deus que matou sua mulher


Sabemos que sobre o lado fraco se pode caluniar qualquer coisa

E nós duas não temos sequer os nossos nomes

Em nosso favor, temos a dizer que


Quando acordamos

Já estávamos grávidas.

 Adriane Garcia 

Poemas inéditos.

Seu novo livro "A bandeja de Salomé" sairá pela Caos & Letras neste ano.



A COR DOS OLHOS DE LIA

Busco seu amor com esse desespero

Das mulheres que não puderam aprender de si

A não ser sobre os modos de agradar a um homem

A não ser este olhar pedinte e terno


Quero que passe por mim e não perceba

O quanto sou feia, o quanto meu nome

Pode significar vaca selvagem, sei que prefere

Uma ovelha mansa, bonita como Raquel


Sonho com nosso casamento assim como

Sonho com meu casamento com um homem

De qualquer nome, desde que me ame, desde que

Me diga a mim quem sou, pois sou apenas mulher


Vejo meu pai me dando à sua cama, enganando

Ninguém, já que conhece bem a voz de Raquel

Nesta noite em que fingimos que sou ela

Porque quem mendiga amor toma de empréstimo


Ouço o sino do desprezo, torno-me esposa

Você trocando nossos nomes, enquanto me toma

Mais sete anos para que meu pai lhe venda

Outra mulher, outra de nós, e faça um bom negócio


Gero um filho, sei que agora me amará

Gero outro filho, tudo ficará melhor do que antes

Gero mais um filho, você ficará ligado a mim

E mais outro, as mulheres dirão que sou feliz


Aprendo a carregar barrigas, a ser mãe e mãe

E mãe e mãe e mãe à exaustão dos dias

A esperança em cada filho amortecida

(pareço sempre pior na sua presença)


Quedo no tempo registrado no corpo, estou parindo

Raquel está parindo e você é viril em nossas servas

Deus se lembra de nós nos dando mais filhos

Você sequer se lembra da cor dos meus olhos.


* Todos esses poemas são do livro inédito A bandeja de Salomé.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para
adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná, 2ª
edição pela ed. Confraria do Vento, 2017 e e-book pela Camino Editorial, 2021), O
nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do
Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar
(ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei - a desmemória dos bois (ed. Conceito
Editorial, 2019), Eva-proto-poeta (ed. Caos & Letras, 2020) e Estive no fim do mundo e
me lembrei de você (ed. Peirópolis, 2022).

Das coisas e dois elefantes azuis virados de costas

Renata Belmonte

Eu até tinha uns trocados, mas sabia que o sinal já ia abrir, então falei: fica para a próxima. Ela me lançou um olhar ofendido como se me perguntasse: e quando é a próxima? Será que você não vê que uma velha como eu não tem próxima? Com essas condições, você acha que ainda vou viver muito para esperar a sua próxima? 

Uma vez e outra também erro

Michelli Provensi

Ela acredita que vagalumes são materializados pelo inconsciente coletivo. Eu da minha parte desconfio de parentes de besouros que só os machos são alados, mas acho lindo escuro e pirilampo. Ela odeia falar pirilampos. Diz que dá vontade de fazer pipi.  

sufocada pela desmemória

Resenha do livro Cheia, de Natália Zuccala

por Laura Redfern Navarro

Afinal, talvez o mais angustiante de todo o romance não seja o esquecimento de Amanda acerca dos fatos, mas dela mesma. Assim, a presença de diversas violências que a atravessam sejam conflituosas, essencialmente, por lembrarem a protagonista de si própria, ou, ainda, de sua realidade.

O balão amarelo

Lima Trindade

Meu bem, agora, falava animado. Eu não o ouvia. De repente parou, deteve os olhos em mim e se virou de costas. Procurei o balão no céu. Ele já avançava sobre os postes de luz improvisados. E recordei da estranha manhã em que eu era muito pequeno e mal tinha aprendido a andar.

Foto: Marcelo Frazão

Poemas

de Daniela Avelar

uma criança constrói uma torre

para ser destruída:

alegria

pelos blocos que se espalham no chão 

Foto: Tiago Luz

Para que afinal se faça luz!

Resenha do livro Para os que ficam, de Alex Andrade

por Krishnamurti Goes dos Anjos

Um escritor que se preze terá sempre e incansavelmente que retomar, reabrir e redimensionar temas, segundo sua visão-de-mundo. Indagações, perplexidades e desesperos humanos estão sempre a convocar e atualizar os temas básicos da existência. 

O engodo de Laura

Andreas Chamorro

Laura reparou num monumento metálico, como dois grampos gigantes de papel que dançassem juntos. Três homens tomavam banho com a luz daquela manhã de dez de agosto deitados de olhos fechados, as roupas pretas e quentes, as peles imundas: poeira presa à semanas de suadeiras. Laura, você poderia estar na rua


Pode uma corpa gorda gozar?

Ensaio sobre o livro Soluções de dois estados, de Michel Laub

por Euler Lopes

Sem maniqueísmos, o que temos é uma deliciosa personagem gorda, que se utiliza da ironia para defender suas ideias e que se, por um lado, não nega a sua existência e o que isso gera; por outro, apresenta suas ambiguidades.  

Poemas

de Maria Eduarda Lima

tia glenda cospe lágrimas

a cada passada em meus cachos

me diz que estou bonita

que sou boa 

O vaso

Renata Fiorenzano Marques

Brincava com a primalhada, em número maior a cada ano. Tinha o primo do primo. Tinha o "esse também deve ser teu primo". Todo mundo virava primo nas brincadeiras de rua, futebol, abafa, peteca, pique-tá. Passados uns dias, nem me lembrava mais de São Paulo.

Rara flor ferida

Fabio Santiago

Seria poesia

a ferida

que habitava o meu pé ferido? 

Foto: Angela Grochocki Santiago

Farpas

Resenha de Júpiter Marte Saturno, de Irka Barrios

por Juliana Cunha

De contos fortes, sintéticos e sem metáforas óbvias, é difícil dizer sobre o livro, é mais fácil senti-lo. É ser ferido por uma farpa.

Minchoni elabora reflexões teóricas sobre as relações entre o poeta e o palhaço, os brincantes, partindo de sua experiência de mais de 20 anos como poeta da fala

Foto: Renato Nascimento

Coronárias: mulheres escrevem a pandemia

Fernanda Hamann

O testemunho de Levi me ensinou que, numa guerra, o escritor é o mais importante. Porque pode afetar as pessoas, gerações de pessoas, e fazê-las pensar que as guerras nem deveriam acontecer. 

Poemas

de João Nunes Junior

o dólar a quase 6 e nós

aqui lidando com as estrelas

enquanto o suor retorna

para as cavernas do amor. 

Há de brotar asas dentro de nós

Resenha do livro Nem sinal de asas, de Marcela Dantés

por Euler Lopes 

A personagem de Dantés é extremamente humana, e talvez por isso, ela tenha asas invisíveis que crescem como nódulos prestes a transformá-la em múmia, em corpo cristalizado, em morte.

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